Bíblia CatólicaRegraApoftegmasCatecismoPodcastSobre

30 apoftegmas

Abade Agatão

1

Disse o Abade Pedro, o discípulo do Abade Lote: “Estávamos certa vez na cela do Abade Agatão, quando foi ter com ele um irmão que dizia: “Quero morar com os irmãos; dize-me como hei de viver com eles”. Respondeu-lhe o ancião: “Como no primeiro dia em que te chegares a eles, assim todos os dias da tua vida conserva a tua qualidade de estranho, de modo a não teres familiaridade com eles”. Perguntou então o Abade Macário: “E que importa a familiaridade?” Respondeu-lhe o ancião: “A familiaridade se parece com um calor muito ardente, o qual, sempre que se produz, afugenta a todos e destrói os frutos das árvores”. Interrogou o Abade Macário: “Tão daninha assim será a familiaridade?” Respondeu o Abade Agatão: “Não há outro afeto pior do que a familiaridade; com efeito, é a matriz de todas as paixões. É preciso que o operário (1) não experimente familiaridade, mesmo que viva a sós na cela. Sei que um irmão, tendo morado muito tempo em sua cela, onde havia um leitozinho, disse: 'Teria mudado de cela sem ter percebido nem mesmo o leitozinho, se outro não me tivesse chamado a atenção'. Um tal é realmente operário e guerreiro”.

2

Disse o Abade Agatão: “É preciso que o monge não deixe que a consciência o acuse em coisa nenhuma”.

3

Disse também: “Sem a observância dos preceitos divinos, o homem não progride em uma só virtude que seja”.

4

Disse ainda: “Nunca adormeci tendo alguma coisa contra alguém; nem, enquanto o podia, deixei que alguém fosse dormir tendo algo contra mim”.

5

A respeito do Abade Agatão diziam que o foram procurar alguns homens, os quais tinham ouvido dizer que possuía grande discernimento. E, querendo experimentar se se enfurecia, disseram-lhe: “Tu és Agatão?” Ouvimos a teu respeito que és fornicador e soberbo”. Respondeu: “De fato, assim é”. Acrescentaram: “Tu és Agatão, o tagarela e difamador?” Respondeu: “Sou”. Disseram mais: “Tu és Agatão, o herege?” Respondeu: “Não sou herege”. Solicitaram-no, então, nestes termos: “Dize-nos por que é que aceitaste tão graves coisas que te dissemos; esta última, porém, não a suportaste”. Respondeu-lhes: “Aquelas, eu as ponho em minha conta, pois são de proveito à minha alma; ser herege, porém, significa separar-se de Deus, e não me quero separar de Deus”. Tendo ouvido isto, admiraram o seu discernimento, e foram-se edificados.

6

Narraram do Abade Agatão que passou muito tempo a construir a cela com os seus discípulos; tendo-a terminado, retiraram-se nela para a habitar. Na primeira semana, porém, viu algo que não o edificava, e disse aos discípulos: “Levantai-vos, vamo-nos daqui”. Ora estes perturbaram-se muito dizendo: “Se de qualquer modo já pensavas em te mudar, por que é que sofremos tão grande fadiga para construir a cela? De novo os homens, escandalizados por nós, hão de dizer: “Eis que os instáveis mais uma vez se mudaram”. Vendo-os, então, pusilânimes, respondeu-lhes: “Se se escandalizarem alguns outros se edificarão, dizendo: “Bem-aventurados estes, pois, por causa de Deus, se mudaram e tudo desprezaram'. Quem, pois, quer vir, venha; eu agora me vou”. Atiraram-se, então, por terra, rogando-lhe que lhes concedesse partir com ele, até que obtiveram licença.

7

Disseram também a respeito dele que, muitas vezes, mudava de pouso tendo apenas a sua foicezinha no cesto.

8

Perguntaram uma vez ao Abade Agatão o que é maior: o trabalho do corpo ou a disciplina interior (da alma). Respondeu o ancião: “O homem se parece com uma árvore: o trabalho do corpo é como que a folhagem, enquanto a disciplina da alma é como que o fruto. Pois que, conforme está escrito, 'toda árvore que não produz fruto bom, será cortada e atirada ao fogo' (1), é evidente que todo o nosso esforço deve visar ao fruto, isto é, à disciplina da alma. Contudo também são necessários o envoltório e o ornamento da folhagem, que são o trabalho do corpo”.

9

Perguntaram-lhe ainda os irmãos: “Qual a virtude, ó Pai, que entre as demais exige maior labor?” Respondeu-lhes: “Desculpai-me, julgo que não há labor igual ao da oração a Deus. Pois, todas as vezes que o homem quer orar, tentam os inimigos arredá-lo; bem sabem que não são suplantados por outro meio do que pela oração a Deus. Na prática de qualquer virtude que o homem assuma á si, se persevera, consegue tranquilidade; a oração, porém, até o último hálito requer luta”.

10

O Abade Agatão era sábio de mente, diligente de corpo; em geral bastava a si mesmo, tanto no trabalho manual como na alimentação e no vestuário.

11

O mesmo caminhava com os seus discípulos, quando um destes encontrou na estrada um grãozinho verde de ervilha e perguntou ao ancião: “Pai, mandas que eu o recolha?” O ancião olhou-o com admiração e interrogou: “Fostes tu que aí o puseste?” Respondeu o irmão: “Não”. E o ancião retrucou: “Como então queres recolher o que não puseste?”

12

Um irmão foi ter com o Abade Agatão, dizendo: “Permite-me que habite contigo”. Ora, quando caminhava pela estrada, encontrara pequena pedra de nitro, e a tomara consigo. Disse-lhe, pois, o ancião: “Onde encontraste esse seixo?” Respondeu o irmão: “Encontrei-o na estrada ao caminhar, e recolhi-o”. Acrescentou o ancião: “Se vinhas habitar comigo, como ousaste recolher o que não havias semeado?” E mandou-lhe colocar de novo o seixo no lugar donde o tirara.

13

Um irmão dirigiu-se ao ancião, dizendo: “Um co preceito me foi dado, e, por causa dele, há luta em mim; queria sair para cumpri-lo, mas temo a luta”. Disse-lhe o ancião: “Se estivesse Agatão em tuas condições, cumpriria o preceito e venceria a luta”.

14

Reuniu-se na Cétia, para tratar de determinada questão, um conselho, o qual lavrou a respectiva sentença. Depois do mesmo, chegou-se o Abade Agatão aos monges, dizendo: “Não resolvestes o caso devidamente”. Perguntaram-lhe: “Tu quem és para dizer uma palavra sequer?” Respondeu: “Sou filho de homem. Pois está escrito: 'Se, de fato, proferis a justiça, sentenciai o que é reto, ó filhos dos homens'“ (1).

15

Diziam do Abade Agatão que passou três anos com uma pedra na boca até que adquiriu o hábito do silêncio.

16

Referiam também dele e do Abade Amum que, quando vendiam algum objeto, diziam uma vez o preço, e, o que se lhes dava, recebiam-no em silêncio e tranquilidade. Igualmente, quando queriam comprar alguma coisa, davam com silêncio o que se lhes dizia e tomavam o objeto, sem proferir nada absolutamente.

17

O mesmo Abade Agatão disse: “Nunca dei um ágape (2); mas o dar e o receber eram para mim ágape (3): julgava que o lucro de meu irmão é obra de frutificação” (4).

18

O mesmo quando queria julgar alguma coisa que via, dizia dentro de si: “Agatão, não faças o mesmo”. Com isto se apaziguava a sua mente.

19

O mesmo disse: “O homem irascível, ainda que ressuscite um morto, não é agradável a Deus”.

20

Em certa época, o Abade Agatão teve dois discípulos que, separadamente, levavam vida eremítica. Um dia perguntou a um: “Como vives em tua cela?” Respondeu-lhe: “Jejuo até o pôr do sol, e então como dois pãezinhos”. Disse: “Eis um regime digno, que não acarreta muita fadiga”. E ao outro interrogou: “Como vives tu?” Respondeu: “Jejuo dois dias, no fim dos quais como dois pãezinhos”. Disse-lhe então o ancião: “Lutas intensivamente sustentando duas pugnas, pois, se alguém come todos os dias e não se sacia, luta. Outros há que querem jejuar dois dias e saciar-se; tu, porém, duplicas o jejum e não te sacias”.

21

Um irmão interrogou o Abade Agatão a respeito da fornicação. Respondeu-lhe este: “Vai, atira diante de Deus a tua fraqueza, e encontrarás sossego”.

22

Certa vez adoeceram o Abade Agatão e outro dos anciãos. Ora, estando eles deitados na cela, um irmão lia o livro do Gênesis e chegou ao capítulo em que Jacó diz: “José não está, Simeão não está, e a Benjamim haveis de levar; assim fareis chegar em tristeza a minha velhice ao túmulo” (1). Falou então o ancião: “Não te bastam os outros dez, ó Pai Jacó?” Disse o Abade Agatão: “Cala-te, ancião; se Deus tem alguém por justo, quem é que há de condenar?”

23

Disse o Abade Agatão: “Se alguém me fosse extremamente caro, e eu soubesse que ele me leva ao pecado, eu o afastaria de mim”.

24

Disse também: “É preciso que, a toda hora, o homem se recorde do juízo de Deus”.

25

Estando os irmãos a falar sobre a caridade, perguntou o Abade José: “Sabemos nós o que é caridade?” E contou, a respeito do Abade Agatão, que este tinha um canivete; foi ter com ele um irmão, o qual se pôs a louvar o objeto; o Abade, então, não o deixou partir sem que tivesse aceito o canivete”.

26

Dizia o Abade Agatão: “Se me fosse possível encontrar um leproso e dar-lhe o meu corpo em troca do corpo dele, fá-lo-ia com prazer. Pois esta é a caridade perfeita”.

27

Também dizia dele que, certa vez tendo ido à cidade para vender seus artefatos, encontrou na praça pública um homem atirado por terra, doente, o qual não tinha quem dele tratasse. Ora o ancião permaneceu com ele, tomando uma morada de aluguel, com o trabalho de suas mãos pagava o aluguel e as demais coisas de que necessitava o doente. Assim se deixou ficar quatro meses, até que estivesse curado o enfermo. Depois do que, o ancião voltou para a sua cela em paz.

28

Contava o Abade Daniel: “Antes que o Abade Arsênio viesse ter com meus Pais, também estes permaneciam com o Abade Agatão. Ora o Abade Agatão gostava do Abade Alexandre porque este era lutador (1) e diligente. Aconteceu que todos os discípulos de Agatão lavavam os seus fios de tear no rio; também o Abade Alexandre lavava diligentemente. Os outros irmãos, porém, disseram ao ancião: “O irmão Alexandre nada faz”. O mesmo, querendo curá-los, disse-lhe: “Irmão Alexandre, lava bem, pois são fios de linho”. Alexandre, tendo ouvido isto, entristeceu-se. Depois, porém, o ancião consolou-o, dizendo: “Então não sabia eu que trabalhas zelosamente? Todavia, disse-te aquilo, em presença deles, a fim de curar a sua mente pela tua obediência, irmão”.

29

A respeito do Abade Agatão narraram que se esforçava por cumprir todas as ordens. Quando navegavam em barco, era ele o primeiro a agarrar o cabo do remo; quando irmãos iam ter com ele, logo depois da oração, punha a mesa com as próprias mãos; com efeito, era cheio do amor de Deus. Quando estava próximo da morte, ficou três dias de olhos abertos e fixos. Os irmãos, então tocaram-no, dizendo: “Abade Agatão, onde estás?” Respondeu-lhes: “Estou colocado diante do tribunal de Deus”. Perguntaram-lhe: “Também tu temes, ó Pai?”Respondeu-lhes: “Até agora fiz o que pude para observar os mandamentos de Deus; sou homem, porém; como hei de saber se meu esforço agradou a Deus?” Disseram-lhe os irmãos: “Não tens confiança em teu labor, executado conforme Deus?” Retrucou: “Não terei confiança, antes de me encontrar com Deus; pois um é o modo de julgar de Deus, outro o dos homens”. Como o quisessem interrogar de novo, disse-lhes: “Praticai a caridade, não faleis mais comigo, pois estou atarefado”. E morreu com alegria. Com efeito viam que ele partia como alguém que saúda os amigos e bem-amados. Tinha grande vigilância em tudo, e dizia: “Sem grande vigilância o homem não progride numa virtude sequer”.

30

Certa vez o Abade Agatão dirigiu-se à cidade a fim de vender pequenos objetos, e encontrou um leproso à margem da estrada. Perguntou-lhe o leproso: “Aonde vais?” Respondeu o Abade Agatão: “Para a cidade a fim de vender objetos”. Disse-lhe: “Sê caridoso, e leva-me para lá”. Agatão, tomando-o nos braços, levou-o para a cidade. Rogou-lhe então o outro: “Onde venderes os objetos, lá coloca-me”. Ele assim fez. Quando acabou de vender um objeto, perguntou-lhe o leproso: “Por quanto o vendeste?” Respondeu: “Por tanto”. Disse-lhe o leproso: “Compra-me um pão”. E aquele o comprou. E de novo vendeu outro objeto. Interrogou então o leproso: “E este, por quanto o vendeste?” Respondeu: “Por tanto”. E o mesmo retrucou: “Compra-me isto”. Aquele comprou. Ora, quando terminou de vender todos os seus objetos e se queria ir, disse-lhe o leproso: “Vais embora?” Respondeu: “Sim”. E aquele: “Sê de novo caridoso, e reconduze-me aonde me encontraste”. E Agatão, tomando-o nos braços, carregou-o para seu antigo lugar. Este então lhe disse: “Bendito és, Agatão, pelo Senhor no céu e na terra”. E o Abade, levantando os olhos, a ninguém viu. Com efeito, fora um anjo do Senhor que descera a fim de o experimentar.