38 apoftegmas
Abade Antão
O santo Abade Antão, certa vez sentado no deserto, foi acometido de acedia e grande turbilhão de pensamentos; disse então a Deus: “Senhor, quero ser salvo, e não me deixam os pensamentos; que farei na minha tribulação? Como serei salvo?” Pouco depois, levantando-se para sair, Antão viu alguém, semelhante a ele mesmo, sentado e trabalhando, a seguir levantando-se do trabalho e rezando, para de novo sentar-se e tecer a corda, e mais uma vez levantar-se para a oração; era um anjo do Senhor mandado para reerguer e robustecer Antão. Ora, este ouviu o anjo dizer: “Faze assim, e serás salvo”. Ao ouvir isto, Antão muito se alegrou e animou, e, assim fazendo, era salvo.
O mesmo Abade Antão, considerando atentamente o abismo dos juízos de Deus, perguntou: “Senhor, por que é que alguns homens morrem após breve vida, enquanto outros se tornam extremamente velhos? E por que é que alguns são pobres e outros ricos? E por que é que os injustos se enriquecem, enquanto os justos sofrem necessidade?” Veio-lhe, então, uma voz, dizendo: “Antão, cuida de ti mesmo, pois isto são juízos de Deus, e não te convém penetrá-los”.
Alguém interrogou o Abade Antão: “Que devo observar para agradar a Deus?” O ancião respondeu: “Observa o que te mando- em qualquer lugar para onde vás, tem sempre Deus ante os olhos; qualquer coisa que faças, procura ter o testemunho das Sagradas Escrituras: e, de qualquer lugar em que residas, não te movas facilmente. Observa estas três coisas, e serás salvo”.
O Abade Antão disse ao Abade Poimém (1): “Esta é a grande labuta do homem: assumir sobre si mesmo a culpa própria diante de Deus, e esperar a tentação até o último suspiro”.
O mesmo disse: “Ninguém sem tentação poderá entrar no reino dos céus”. “Suprime”, disse, “as tentações, e ninguém será salvo”.
O Abade Pambo interrogou o Abade Antão: “Que farei?” Disse-lhe o ancião: “Não confies em tua justiça, nem te arrependas do que já passou (2), e sê continente de língua e de ventre”.
Disse o Abade Antão: “Vi todas as armadilhas do inimigo estendidas sobre a terra, e, gemendo, perguntei: 'Quem escapará a elas?'. Ouvi então uma voz que me dizia: 'A humildade'“.
Disse de novo: “Há alguns que consomem o corpo em ascese, e, por não terem discrição, se afastam de Deus”.
Disse de novo: “Do próximo dependem a vida e a morte; pois, se lucramos o nosso irmão, lucramos a Deus. Se, porém, escandalizamos o irmão, pecamos contra Cristo”.
Disse ainda: “Como os peixes que se demoram na terra seca, morrem, assim também os monges, permanecendo fora da cela, ou vivendo com seculares, se relaxam da tensão da vida recolhida, é preciso, pois, que, como o peixe para o mar, assim também nos apressemos para a cela, para que não aconteça que, demorando-nos fora, esqueçamos a guarda interior”.
Disse de novo: “Quem permanece no deserto e lá vive tranquilamente, liberta-se de três combates, que são o dos ouvidos, o da conversa e o dos olhos; só lhe resta um: o da fornicação”.
Alguns irmãos foram ter com o Abade Antão para contar-lhe visões que tinham tido, e dele saber se eram genuínas ou demoníacas. Ora eles tinham um asno, que morreu pelo caminho. Quando, pois, chegaram à cela do ancião, este, antecipando-os, perguntou-lhes: “Como morreu o vosso burrinho pela estrada?” Interrogaram-no: “Donde o sabes, Abade?” Este lhes respondeu: “Os demônios mostraram-mo”. Disseram-lhe então: “Por isto viemos perguntar-te, a fim de que não nos enganemos: temos visões, as quais muitas vezes correspondem à realidade”. Ora o ancião convenceu-os, pelo exemplo do asno, de que eram visões diabólicas.
Estava alguém no deserto a caçar animais selvagens, quando viu o Abade Antão em conversa alegre com os irmãos. O ancião, querendo então persuadi-lo de que é preciso de vez em quando condescender com os irmãos, disse-lhe: “Põe uma seta no teu arco, e deixa-o teso”. Aquele assim fez. Disse-lhe de novo: “Entesa-o mais”. Ele o fez. E novamente: “Distende-o mais”. Replicou-lhe o caçador: “Se o estender além da medida, romper-se-á o arco”. Ao que o ancião respondeu: “Assim também é para a obra de Deus: se além da medida entesarmos os irmãos, em breve romper-se-ão. É necessário, pois, de quando em quando condescender com eles”. Ouvido isto, o caçador foi tocado de compunção, e, levando muito proveito, que lhe comunicara o ancião, retirou-se, enquanto os irmãos, confirmados, voltavam para sua morada.
O Abade Antão ouviu que certo jovem monge fizera um milagre pela estrada: tendo ele visto alguns anciãos em viagem fatigados pelo caminho, mandou a asnos selvagens que se aproximassem e carregassem os anciãos até chegarem à cela de Antão. Ora os velhos referiram isto a Antão. Este disse-lhes: “Para mim este monge se parece com uma nave cheia de mercadorias; não sei se chegará ao porto”. E, após certo tempo, o Abade Antão de repente pôs-se a chorar e puxar-se os cabelos e lamentar-se. Perguntaram-lhe então os discípulos: “Por que choras, Abade?” Respondeu: “Grande coluna da Igreja acaba de cair” (falava do jovem monge) “mas ide até ele”, disse, “e vede o que aconteceu”. Foram-se, pois, os discípulos e encontraram o monge sentado sobre o seu colchão e chorando o pecado que cometera. Ao ver os discípulos do Abade, disse: “Pedi ao ancião que rogue a Deus a fim de que me conceda dez dias apenas, no fim dos quais espero ter satisfeito”. Dentro de cinco dias, porém, o jovem morreu.
Certo monge foi louvado pelos irmãos junto ao Abade Antão. Ora este, recebendo-o em visita, quis experimentar se sabia suportar uma injúria; e, tendo verificado que não, disse-lhe: “Assemelhas-te a uma aldeia bem ornada na sua parte anterior, mas por trás despojada pelos ladrões”.
Um irmão pediu ao Abade Antão: “Reza por mim”. Disse-lhe o ancião: “Nem eu terei compaixão de ti, nem Deus, se tu mesmo não te encheres de zelo e rogares a Deus”.
Alguns anciãos aproximaram-se certa vez do Abade Antão, estando o Abade José com eles. O ancião, querendo prová-los, propôs uma palavra da Escritura, e, a partir do menos velho, começou a interrogá-los sobre o sentido da mesma. Cada qual respondia conforme a sua capacidade. A todos, porém, Antão dizia: “Ainda não acertaste”. Por último perguntou ao Abade José: “Tu como interpretas tal palavra?” Este respondeu-lhe: “Não sei”. Replicou o Abade Antão: “O Abade José encontrou plenamente a via, pois disse: 'Não sei'“.
Alguns irmãos iam da Cétia (1) em visita ao Abade Antão. Ao subirem no barco para viajar, encontraram um velho que lá também queria chegar. Os irmãos não o conheciam. Ora, tendo-se sentado no barco, estes proferiam ditos dos Padres, da Escritura e falavam também do seu trabalho manual, enquanto o ancião, do seu lado, permanecia calado. Quando chegaram ao ancoradouro, evidenciou-se que igualmente o velho ia ter com o Abade Antão. Ao se aproximarem deste, disse Antão aos irmãos: “Encontrastes boa companhia de viagem, que é este velho”; e ao velho: “Encontraste bons irmãos contigo, Abade”. Disse o velho: “São bons, sim, mas o quintal deles não tem porta; quem quer, entra no estábulo e solta o burro”. Disse isto, porque proferiam tudo que lhes vinha à boca.
Alguns irmãos chegaram-se ao Abade Antão e pediram-lhe: “Dize-nos uma palavra pela qual sejamos salvos”. Respondeu-lhes o ancião: “Escutastes a Escritura? Está bem para vós”. Eles, porém, replicaram: “Também de ti queremos escutar alguma coisa, Pai”. Retrucou-lhes: “O Evangelho diz: 'Se alguém te esbofeteia na face direita, oferece-lhe também a outra'“ (1). Disseram-lhe: “Não podemos fazer isto”. Respondeu-lhes o ancião: “Se não podeis oferecer também a outra, suportai ao menos numa face. Replicaram-lhe: “Nem isto o podemos”. O ancião então disse: “Se nem isto podeis, não retribuais o golpe que recebestes”. E responderam: “Também isto, não o podemos”. Então o ancião mandou ao seu discípulo: “Prepara-lhes um pouco de mingau, pois estão doentes. Se não podeis isto, e não quereis aquilo, que vos farei? Precisais de orações”.
Um irmão que renunciara ao mundo e distribuíra os seus bens aos pobres, retendo, porém, alguma pouca coisa para si, apresentou-se ao Abade Antão. Este, ao saber disto, disse-lhe: “Se te queres tornar monge, vai àquela aldeia, compra carnes, aplica-as ao teu corpo nu, e, em tais condições, volta para cá”. O irmão tendo feito assim, os cães e pássaros dilaceravam-lhe o corpo. Ora, ao encontrar-se com o ancião, este perguntou-lhe se fizera como havia aconselhado. O irmão mostrou-lhe então o corpo todo dilacerado; ao que disse santo Antão: “Aqueles que renunciaram ao mundo e ainda querem ter bens, são dessa forma despedaçados pelos demônios na luta”.
A certo irmão sobreveio uma vez uma tentação no cenóbio do Abade Elias. De lá expulso, foi ter com o Abade Antão no monte. Quando o irmão já estava certo tempo com ele, Antão mandou-o regressar para o mosteiro donde viera. Ao vê-lo, porém, os monges de novo o expulsaram, e o irmão voltou ao Abade Antão dizendo: “Não me quiseram receber, Pai”. O ancião enviou-o de novo, mandando dizer: “Um barco naufragou no mar, perdeu a carga, e esta com dificuldade foi salva e levada para a terra; vós, porém, quereis atirar ao mar o que foi salvo”. Ora, os monges, tendo ouvido que o Abade Antão o enviara, receberam-no logo.
O Abade Antão disse: “Julgo que o corpo tem um movimento natural, que lhe é bem conforme, mas não age quando a alma não quer; esta só lhe indica movimentos desapaixonados. Há, além desta, outra espécie de movimentos, que provém do fato de que se alimenta e aquece o corpo com comida e bebida: o calor que o sangue recebe destas, excita o corpo a agir; por isto o Apóstolo dizia: 'Não vos inebrieis com vinho, no qual há luxúria' (1). Também o Senhor no Evangelho mandou aos discípulos: 'Cuidai para que não se tornem pesados os vossos corações em crápula e embriaguez' (2). Há ainda uma outra espécie de movimentos, que é própria dos que lutam, e sobrevém por maquinação e inveja dos demônios. Assim é preciso saber que três são as espécies de movimentos do corpo: uma natural, outra província do consumo dos diversos alimentos, e a terceira causada pelos demônios”.
Disse também que Deus não permite desçam os combates sobre esta geração como sobre as antigas, pois sabe que é fraca e não sustenta.
Ao Abade Antão no deserto foi revelado: “Na cidade há alguém semelhante a ti, médico de profissão, o qual distribui aos indigentes o que tem de supérfluo, e o dia inteiro canta o Trishagion (3) com os anjos”.
Disse o Abade Antão: “Tempo virá em que os homens enlouquecerão, e, ao verem alguém que não esteja louco, se erguerão contra ele, dizendo: 'Tu és louco', porque não será semelhante a eles”.
Alguns irmãos chegaram-se ao Abade Antão e disseram-lhe uma palavra do Levítico. Então o ancião saiu para o deserto, seguindo-o às ocultas o Abade Amonas, que conhecia o seu costume. Tendo-se afastado muito, o ancião de pé em oração gritava em alta voz: 'Ó Deus, mandai Moisés e ensinai--me esta palavra”. E desceu a ele uma voz que lhe falou. Depois o Abade Amonas disse: “A voz que falava com ele, ouvi-a, sim; a força, porém, da palavra, não a percebi”.
Três dos Padres costumavam ir ter todos os anos com o bem-aventurado Antão; dois deles interrogavam-no sobre pensamentos e salvação da alma, enquanto o terceiro se calava de todo e nada perguntava. Depois de muito, disse-lhe o Abade Antão: “Eis tanto tempo há que aqui vens e nada me perguntas”. Ao que respondeu: “Basta-me ver-te, ó Pai”.
Diziam que um dos anciãos pedira a Deus a graça de ver os Padres. De fato, viu-os sem o Abade Antão; perguntou, então, a quem lhos mostrava: “Onde está o Abade Antão?” Aquele respondeu-lhe: “No lugar em que Deus está, aí está ele”.
Certo irmão no mosteiro foi falsamente acusado de fornicação. Levantou-se então, e foi ter com o Abade Antão. A seguir, chegaram os irmãos do cenóbio para curá-lo e levá-lo; e puseram-se a arguí-lo: “Assim fizeste”. Ele, porém, defendia-se: “Nada disso fiz”. Achava-se lá oportunamente o Abade Pafnúcio Cefalas, o qual contou esta parábola: “Vi à margem do rio um homem metido na lama até os joelhos; sobrevieram alguns outros para dar--lhe a mão, os quais o mergulharam até o pescoço”. Então o Abade Antão disse-lhes a respeito do Abade Pafnúcio: “Eis um homem verdadeiro, capaz de curar e salvar as almas”. Compungidos pela palavra dos anciãos, os monges inclinaram-se pedindo perdão ao irmão, e, exortados pelos Padres, levaram-no para o cenóbio.
A propósito do Abade Antão, diziam alguns que se tornara pneumatóforo (1), mas não queria falar por causa dos homens; pois revelava o que acontecia no mundo e o que estava para acontecer.
Certa vez o Abade Antão recebeu uma carta do Imperador Constando, que o chamava a Constantinopla. Deliberava sobre o que faria, quando perguntou ao Abade Paulo, seu discípulo: “Devo ir?” Este respondeu-lhe: “Se vais, mereces o nome Antão; se não vais, Abade Antão.
O Abade Antão disse: “Já não temo a Deus, mas amo-o. Pois 'a caridade expele o temor'“ (2).
O mesmo disse: “Tem sempre ante os olhos o temor de Deus. Recorda-te daquele que 'leva à morte e traz à vida' (3). Odiai o mundo e tudo que nele há. Odiai todo repouso da carne. Renunciai a esta vida, a fim de viverdes para Deus. Recordai-vos do que prometestes a Deus, pois Ele o pedirá de vós no dia do juízo. Sofrei fome, sede, suportai a nudez, vigiai, arrependei-vos, chorai, gemei no vosso coração; provai-vos, a saber se sois dignos de Deus; desprezai a carne, para salvar as vossas almas”.
Certa vez o Abade Antão foi ter com o Abade Amum na montanha da Nítria. Quando se viram juntos, disse-lhe o Abade Amum: “Já que pelas tuas orações se multiplicaram os irmãos, e alguns deles querem construir moradas longínquas para ter tranquilidade, a que distância daqui mandas sejam construídas as novas moradas?” Ele respondeu: “Comamos à hora nona; depois saiamos, percorramos o deserto e examinemos o lugar”. Tendo eles caminhado pelo deserto até o pôr-do-sol, disse o Abade Antão: “Façamos oração e finquemos aqui uma cruz; aqui construam os que o querem, a fim de que os monges de lá, quando visitarem os daqui depois de ter comido o seu magro bocado à hora nona, venham assim (1), e, não obstante, chegando em boa hora, ao pôr do sol, ao termo da viagem), e a fim de que os daqui, quando saírem, façam o mesmo, o nem uns nem outros sofram perturbarão pelas visitas mútuas” (2). Ora a distância era de doze milhas.
Disse o Abade Antão: “Quem bate a massa de ferro, delibera primeiro o que fará: foice, espada ou machado. Assim também nós devemos deliberar qual virtude procuraremos adquirir, para que não trabalhemos em vão”.
Disse ainda que a obediência, unida à abstinência, submete as feras.
Disse de novo: “Conheço monges que, após muitas fadigas, caíram, e perderam o controle da mente, porque nutriram esperança nas suas próprias obras e negligenciaram o preceito daquele que disse: 'Interroga teu pai, e ele te anunciará' (3)”.
Disse também: “Se possível, o monge deve confiante dizer aos anciãos quantos passos dá ou quantas gotas bebe na cela, para se certificar de que não ofende nessas práticas”.