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8 apoftegmas

Abade Daniel

1

Contavam a respeito do Abade Daniel que quando os Bárbaros invadiram a Cétia, os Padres fugiram. Disse então o ancião: “Se Deus não se ocupa de mim, para que também hei de viver?” E andou por meio dos Bárbaros; estes, porém, não o viram. Depois do que, falou consigo mesmo: “Eis que Deus tomou cuidado de mim, e não morri; faze, portanto, também tu o que é humano, e foge como os Padres”. E, tendo-se levantado, fugiu.

2

Um irmão pediu ao Abade Daniel: “Dá-me um preceito, e eu o observarei”. Respondeu este: “Nunca estendas a mão a um prato junto com uma mulher, nem comas em companhia dela. Assim evitarás um pouco o demônio da fornicação”.

3

Contou o Abade Daniel: “Havia na Babilônia a filha de um magistrado que estava possessa do demônio. Ora o pai dela tinha amizade com um certo monge, o qual lhe disse: ‘Ninguém pode curar a tua filha senão os anacoretas que conheço; se, porém, os chamares, não suportarão fazê-lo, por motivo de humildade. Todavia procederemos assim: quando vierem à praça do mercado, fazei como se quisésseis comprar artefatos, e, quando se chegarem para receber o preço, dir-lhes-emos que façam oração, e creio que a jovem será curada’. Sando eles, pois, à praça do mercado, encontraram um discípulo dos anciãs sentado a vender os artefatos dos mesmos; e levaram-no para casa, juntamente com os cestos, como que para receber o preço destes. Ora, quando o monge chegou à casa, foi-lhe ao encontro a jovem demoníaca e deu-lhe uma bofetada; ele, então, apresentou a outra face, conforme o preceito do Senhor. O demônio, atormentado com isto, exclamou: ‘Ó violência! O preceito de Jesus me expulsa’. E logo foi a jovem purificada. Depois, quando chegaram os anciãos, marraram-lhes o que acontecera; eles, então, glorificaram a Deus, e disseram: ‘A soberba do demônio costuma cair pela humildade do mandamento de Cristo’”.

4

Dizia também o Abade Daniel que, quanto o corpo prospera, tanto a alma definha; e, quanto o corpo definha, tanto a alma prospera.

5

Certa vez faziam estrada juntos o Abade Daniel e o Abade Amoés. Perguntou o Abade Amoés: “Quando nos sentaremos na cela, também nós, ó Pai?” Respondeu o Abade Daniel: “Quem é que neste momento nos tira Deus? Deus está na cela, e também fora da cela está Deus”.

6

Contou o Abade Daniel: “Quando o Abade Arsênio estava na Cétia, havia lá certo monge que roubava os artefatos dos anciãos. Chamou-o, então, o Abade Arsênio à sua cela, intencionando lucrar o monge e dar paz aos anciãos; disse-lhe, pois: ‘Qualquer coisa que quiseres, eu ta darei; apenas não furtes’. E deu-lhe ouro, dinheiro, vestes e tudo de que precisava. Aquele, porém, foi-se, e roubou de novo. Em consequência, os anciãos, vendo que não se emendara, expulsaram-no, dizendo: ‘Se se encontra algum irmão que sofra da fraqueza de um vício, é preciso corrigí-lo; mas, se rouba, expulsai-o, pois é nocivo à sua alma e perturba todos os que moram na mesma região’”.

7

Narrou o Abade Daniel, o Faranita: “Nosso Pai, o Abade Arsênio, referiu, a respeito de certo monge da Cétia, que fazia muitas coisas notáveis, mas que era ingênuo em matéria de fé. Ora em virtude de sua simplicidade, caia em erro e dizia: ‘O pão que recebemos, não é realmente o corpo de Cristo, mas símbolo deste’. Certa vez dois anciãos ouviram-no que assim falava, e, conhecendo que muitos méritos tinha por seu gênero de vida, julgaram que o dizia em inocência e simplicidade; foram, pois, ter com ele e disseram-lhe: ‘Abade, ouvimos uma referência contrária à fé a respeito de alguém a saber: afirma que o pão que recebemos, não é realmente o corpo de Cristo, mas o símbolo deste’. Respondeu o ancião: ‘Fui eu que disse isso’. Aqueles, então, exortaram-no: ‘Não conserves este modo de ver, ó Abade, mas aceita o que ensina a Igreja Católica. Nós cremos que o pão mesmo é o corpo de Cristo e que o cálice mesmo é o sangue de Cristo, em verdade, e não em figura. Mas, assim como no princípio Deus tomou lodo da terra e com ele plasmou o homem conforme a Sua imagem, de modo que ninguém pode dizer que não é imagem de Deus, embora imagem que não se deixa compreender, assim também o pão do qual o Senhor disse: ‘É meu corpo’, cremos que em verdade é o corpo de Cristo’. O ancião retrucou: ‘Se eu não for persuadido pelo fato mesmo, não ficarei satisfeito’. Aqueles, então, disseram-lhe: ‘Rezemos esta semana a Deus a respeito de tal mistério; cremos que Deus no-lo revelará’. O ancião recebeu com alegria esta palavra, e orou a Deus, dizendo: ‘Senhor, tu sabes que não é por maldade que sou incrédulo; mas, para que não erre por ignorância, revela a mim, Senhor Jesus Cristo’. De outra parte, os anciãos, voltando às suas celas, oravam a Deus, também eles, dizendo: ‘Senhor Jesus Cristo, revela a esse ancião tal mistério, para que creia e não perca o mérito de sua fadiga ascética’. Ora Deus ouviu a ambos. Terminada a semana, no domingo foram à igreja, e acharam-se juntos os três sós em um banco, estando no meio o ancião incrédulo. Abriram-se-lhes, então, os olhos: quando foi colocado sobre a mesa sagrada o pão, apareceu aos três como que um menino; e, quando o presbítero estendeu a mão para partir o pão, eis que um anjo do Senhor desceu do céu; trazia uma espada, com a qual matou o menino, derramando o seu sangue no cálice. Depois, quando o presbítero partiu o pão em pequenos fragmentos, também o anjo cortava pedacinhos do menino. Por fim, quando se aproximaram para receber as dádivas santas, ao ancião, e ao ancião só, foi dada carne que sangrava; vendo-a, foi tomado de temor, e exclamou: ‘Creio, Senhor, que este pão é teu corpo e o cálice é teu sangue’. Logo a carne que se achava em suas mãos, se tornou pão, conforme o mistério; e ingeriu-o, dando graças a Deus. Disseram-lhe então os anciãos: ‘Deus conhece a natureza humana; sabe que ela não pode comer carne crua, e, por isto, transformou o seu corpo em pão, o seu sangue em vinho, para os que o recebem na fé’. E deram graças a Deus a propósito do ancião, pois que Deus não permitira fossem frustradas as fadigas deste. Finalmente voltaram os três com alegria para as respectivas celas.

8

O mesmo Abade Daniel falou a respeito de um outro ancião, muito benemérito por sua vida, e residente no Egito inferior, que, em sua simplicidade, dizia ser Melquisedeque filho de Deus. Isto foi comunicado ao bem-aventurado Cirilo, arcebispo de Alexandria, o qual mandou alguém ter com o ancião. Ora o arcebispo sabia que o ancião fazia milagres e que, se pedisse alguma coisa a Deus, Deus lha revelava; sabia também que por mera ingenuidade assim falava o ancião; por isto usou da seguinte arte: mandou dizer: “Abade, recorro a ti, pois que um pensamento meu às vezes me sugere que Melquisedeque é Filho de Deus, ao passo que outro pensamento afirma que não, que é homem, Sumo Sacerdote de Deus; já, pois, que estou nessa incerteza, mando-te um emissário, a fim de que peças a Deus que te revele a verdade a esse respeito”. O ancião, confiando em seus merecimentos, respondeu com segurança: “Concede-me três dias, e interrogarei a Deus a tal respeito, e te comunicarei quem era Melquisedeque”. Foi-se, pois, e rogou a Deus sobre o assunto. Depois de três dias, de fato, procurou o bem-aventurado Cirilo e disse-lhe que Melquisedeque era homem. Perguntou, então, o arcebispo: “Como o sabes, ó Abade?” Este respondeu: “Deus mostrou-me todos os Patriarcas, fazendo passar um por um diante de mim, a partir de Adão até Melquisedeque; fica, pois, seguro de que assim é”. Retirou-se, e de então por diante espontaneamente apregoava que Melquisedeque era homem. Com isto alegrou-se grandemente o bem-aventurado Cirilo.