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11 apoftegmas

Abade José De Panefo

1

Alguns dos Padres foram ter com o Abade José de Panefo para interrogá-lo a respeito dos irmãos viajantes que se iam hospedar com eles; queriam saber se se deve condescender e tratá-lo com certa familiaridade. Antes, porém, que lhe fizessem a pergunta, o ancião disse ao seu discípulo: “Observa o que farei hoje, e tem paciência”. O ancião colocou então dois banquinhos, um á sua direita, o outra à esquerda, e disse (1): “Sentai-vos”. A seguir, entrou na cela, revestiu trajes de mendigo, saiu de novo e passou no meio deles. Depois, entrou mais uma vez, revestiu as suas vestes próprias, saiu, e sentou-se no meio deles. Estes se admiraram do procedimento do ancião, o qual lhes perguntou: “Vistes o que fiz?” Responderam: “Sim”. Continuou: “Acaso me tornei outro pela veste vil?” Disseram: “Não”. E ele: “Portanto, sou o mesmo em ambas as vestes: assim como a primeira não me mudou, também a segunda não me prejudicou. É dessa forma que devemos proceder na recepção dos irmãos peregrinos, conforme o santo Evangelho. Pois este diz ‘Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’ (2). Quando, portanto, se apresenta a visita de irmãos, recebamo-los com familiaridade alegre; quando, porém, nos achamos sozinhos, é-nos necessário o luto e que . este permaneça conosco”. Os irmãos, ao ouvi-lo, ficaram admirados, porque, antes que o interrogassem, lhes disse o que traziam no coração. E deram glória a Deus.

2

O Abade Poimém pediu ao Abade José: “Dize-me como farei para me tornar monges?” Respondeu: “Se queres encontrar paz neste mundo e no futuro, em tudo que te aconteça, dize: ‘Eu quem sou?’ E não julgues a ninguém”.

3

O mesmo interrogou de novo o Abade José: “Que devo fazer, quando se aproximam as paixões? Resistir-lhes-ei ou deixarei que entrem?” Respondeu o ancião: “Deixa-as entrar, e luta contra elas”. Aquele voltou para a Cétia, e lá residia. Foi então um Tebano à Cétia, o qual dizia aos irmãos: “Perguntei ao Abade José: ‘Quando se aproxima a paixão, devo resistir-lhe ou deixá-la entrar?’ E ele respondeu-me: ‘De modo nenhum deixes entrar as paixões, mas corta-as de início’. Ora o Abade Poimem, ouvido que o Abade José assim respondera ao Tebano, levantou-se e foi ter com ele em Panefo, dizendo-lhe: “Abade, eu te confiei os meus pensamentos, e eis que diversamente respondeste a mim e ao Tebano”. Perguntou o ancião: “Não sabes que te amo?” Respondeu aquele: “Sim”. Continuou o Abade José: “Não me pediste: ‘Fala a mim como falarias a ti mesmo?’ (1). E Poimém consentiu: “É verdade”. O Abade José concluiu: “Se, pois, as paixões entram e se a elas dás e delas recebes golpes, elas te tornam mais provado. Eu assim falei a ti como teria falado a mim mesmo. Há outros, porém, aos quais convém que nem se aproximem das paixões; ao contrário, têm que as cortar imediatamente”.

4

Um irmão perguntou ao Abade José: “Que farei, pois que nem posso sofrer alguma injúria nem trabalhar para dar esmola?” Respondeu o ancião: “Se não podes nenhuma dessas duas coisas, ao menos guarda a tua consciência de cometer qualquer mal contra o próximo, e serás salvo, pois Deus procurar a alma que não peca”.

5

Um dos irmãos contava o seguinte: “Certa vez fui à Heracléia inferior procurar o Abade José, o qual tinha um belíssimo pé de framboesas no mosteiro. Disse-me ele de manhã: ‘Vai, come’. Era, porém, dia de vigília, e não fui por causa do jejum. Perguntei mesmo ao ancião: ‘Por Deus, explica-me o que significa isto: eis que me disseste: ‘Vai, come’. Não fui por causa do jejum, mas fiquei perturbado ao refletir sobre o teu preceito: ‘Com que intenção me terá falado o ancião? Que hei de fazer?’ Pois me tinha dito: ‘Vai’. O Abade José respondeu: Os Pais no princípio não falam aos irmãos o que é reto, mas antes as coisas tortas, e, quando veem que fazem as coisas tortas, não lhes dizem mais as coisas tortas, mas a verdade, sabendo que em tudo são obedientes”.

6

Disse o Abade José ao Abade Lote: “Não te podes tornar monge, se não te tornares todo ardente como fogo”.

7

O Abade Lote chegou-se ao Abade José e disse-lhe: “Abade, conforme a minha possibilidade rezo meu pequeno Ofício, faço o meu pequeno jejum, a oração, a meditação, guardo a tranquilidade, e, como posso, vou purificando os meus pensamentos. Que ainda devo fazer?” Levantando-se, o ancião estendeu as mãos ao céu, os seus dedos se tornaram como dez lâmpadas de fogo; e disse-lhe: “Se queres, torna-te todo como fogo”.

8

Um irmão interrogou o Abade José, dizendo: “Quero sair do cenóbio e morar solitário”. Respondeu-lhe o ancião: “Ode vires que a tua alma repousa e não sofre dano, aí fica”. Continuou o irmão: “Tanto no cenóbio como na solidão encontro repouso; que, pois, aconselhas que eu faça?” O ancião respondeu: “Se encontras repouso tanto no cenóbio como na solidão, coloca os teus dois pensamentos como que na balança, e escolhe aquilo que vires mais edificar a tua mente e corresponder à sua propensão”.

9

Um dos anciãos chegou-se a seu companheiro, para que juntos fossem visitar o Abade José; disse-lhe: “Manda a teu discípulo que nos sele o asno”. Respondeu o outro: “Chama-o, e fará o que quiseres”. Perguntou o primeiro: “Como se chama?” O outro confessou: “Não sei”. Aquele interrogou então: "Há quanto tempo está contigo, de modo que não saibas o nome dele?” O outro respondeu: “Há dois anos”, Concluiu o interpelante: “Se tu em dois anos não ficaste sabendo o nome do teu discípulo, eu, para um só dia, que necessidade tenho de o saber?”

10

Certa vez reuniram-se os irmãos em torno do Abade José; sentados, interrogavam-no; este se alegrava e, cheio de ânimo, lhes dizia: “Hoje sou rei, pois comecei a reinar sobre as paixões”.

11

A respeito do Abade José de Panefo, contavam que, estando ele para morrer, os anciãos se assentaram em volta dele. Olhou então para a porta e viu o demônio junto a ela; chamou, pois, o seu discípulo e disse-lhe: “Traze o bastão, pois, este pensa que, feito velho, já não tenho mais força contra ele. E, quando o Abade apreendeu o bastão, os ancião viram que o demônio se deixava ir como um cão pela porta, desaparecendo por fim.