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13 apoftegmas

Abade Matoés

1

Dizia o Abade Matoés: “Prefiro um trabalho leve, mas perseverante, a uma labuta penosa, mas logo no princípio cortada”.

2

Disse também: “Quanto mais o homem se aproxima de Deus, tanto mais se vê pecador. Com efeito, Isaías, o Profeta, tendo visto a Deus, confessou-se desgraçado e impuro”.

3

Dizia ainda: “Quando era jovem, repetia comigo mesmo: ‘Talvez venha a fazer algo de bom!’ Agora, porém, que envelheci, vejo que não tenho uma obra boa em mim mesmo”.

4

Dizia mais: “Satanás não sabe por qual paixão a alma se deixa vencer. Portanto, semeia, mas não sabe se recolherá; aqui sugere a fornicação, ali a maledicência, e assim os demais vícios. Quando a seguir, vê a alma inclinar-se para um desses males, apodera-se dela a tal propósito”.

5

Um irmão chegou-se ao Abade Matoés e perguntou-lhe: “Como é que os Cetiotas faziam mais do que o que está na Escritura, amando aos inimigos mais do que a si mesmos?” Respondeu o Abade Matoés: “Eu, em verdade, não amo como a mim mesmo aquele que me ama”.

6

Um irmão perguntou ao Abade Matoés: “Que devo fazer, quando um irmão vem ter comigo num dia de jejum ou de manhã? Estou perturbado com isto”. Respondeu-lhe o ancião: “Se não perdes a paz e comes com o irmão, fazes bem. Se, porém, não esperas a ninguém e comes, estás fazendo a tua vontade”.

7

O Abade Tiago contou o seguinte: “Fui ter com o Abade Matoés. Na despedida disse-lhe: “Intenciono ir às Célias”. Ele me respondeu: “Saúde por mim o Abade João”. Ora, quando cheguei à cela do Abade João, disse-lhe: “Saúda-te o Abade Matoés”. Ele observou: “Eis o Abade Matoés, um verdadeiro israelita, no qual não há dolo” (1). Passado um ano, voltei a procurar o Abade Matoés, e transmiti-lhe a saudação do Abade João. Aquele respondeu: “Não sou digno dessa palavra do ancião. De resto, fica sabendo, quando ouvirdes um ancião exaltar o próximo mais do que a si mesmo, é que um tal chegou a elevado grau de santidade. Com efeito, nisto consiste a perfeição: em exaltar o próximo mais do que a si mesmo”.

8

O Abade Matoés referiu o seguinte: “Um irmão chegou-se a mim e disse-me que a detração é pior que do a fornicação. Repliquei: Dura é essa palavra”. Perguntou-me então: “Que pensas pois, a esse respeito?” Respondi: “A detração é coisa má; todavia deixa-se rapidamente curar, pois o detrator muitas vezes confessa: ‘Falei mal’. A fornicação, porém, é morte para a natureza”.

9

Em dada ocasião, o Abade Matoés foi da região de Raito para as partes de Magdolo; tinha consigo seu irmão. Ora o bispo apreendeu o ancião e o fez presbítero. A seguir, achando-se eles juntos, o bispo disse: “Desculpa-me, Abade; sei que não querias isto, mas ousei fazê-lo para receber a tua bênção”. O ancião respondeu com humildade: “Também o meu espírito desejaria algo de pequenino: sou atribulado porque tenho que me separar de meu irmão que está comigo e não posso cumprir todas as orações sozinho”. O bispo respondeu: “Se sabes que ele é digno, eu lhe imporei as mãos”. O Abade Matoés continuou: “Se é digno, não o sei; todavia uma coisa sei: é melhor que eu”. Diante disto, o bispo ordenou também o irmão. E os dois morreram sem jamais se terem aproximado do altar para consagrar a oblação. O ancião dizia: “Confio em Deus que não incorrerei severo juízo por causa da ordenação, já que não consagro a oferenda. A ordenação é para os irrepreensíveis”.

10

O Abade Matoés relatou: “Três anciãos chegaram-se ao Abade Pafnúcio, dito, Cefalaz, para pedir-lhe uma palavra. Perguntou-lhes o ancião: ‘Que quereis que vos diga: algo de espiritual ou de corporal (1)?” Responderam: ‘Algo de espiritual’. Disse então: ‘Ide, amai a tribulação mais do que o reconforto, o opróbrio mais do que a glória, o dar mais do que o receber’.

11

Um irmão pediu ao Abade Matoés: “Dize-me uma palavra”. Aquele respondeu: “Vai e pede a Deus que dê arrependimento ao teu coração e humildade. Considera semre os teus pecados; e não julgues os outros, mas coloca-te abaixo de todos. Também não tenhas amizade com criança, nem conhecimento de alguma mulher, nem amigo herético. Corta para longe de ti a familiaridade. Refreia a língua e o ventre; de vinho, toma pouco. De qualquer assunto de quem alguém te fale, não discutas; mas, se tiver falado bem, dize: ‘Sim’. Se mal, responde: ‘Tu sabes o que dizes’; mas não litigues com ele a propósito do que tiver dito. Nisto consiste a humildade”.

12

Um irmão pediu ao Abade Matoés: “Dize-me uma palavra”. Ele respondeu: “Corta para longe de ti todo litígio a propósito do que quer que seja; chora e condói-te, pois o tempo se aproximou”.

13

Um irmão perguntou ao Abade Moisés: “Que farei? Minha língua me atormenta; quando compareço em meio aos homens, não a posso reter, mas condeno-os por toda obra bora, e acuso-os. Que, pois, hei de fazer?” Respondeu o ancião: “Se não te podes refrear, foge para a solidão. Pois é fraqueza (1). Aquele que vive com irmãos, não deve ser quadrado, mas redondo, para que possa rolar para junto de todos”. E o ancião acrescentou: “Não é por virtude que resido solitário, mas por fraqueza. Com efeito, potentes são aqueles que se apresentam em meio aos homens”.