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8 apoftegmas

Abade Zeno

4 min de leitura

M
§1

Disse o Abade Zeno, o discípulo do bem-aventurado Silvano: “Não habites em lugar famoso, nem residas com homem que tenha nome célebre, nem em tempo algum lances fundamento para construir uma cela para ti”.

§2

Do Abade Zeno referiam que a princípio não queria aceitar coisa nenhuma de quem quer que fosse. Por conseguinte, os que lhe levavam presentes, iam-se tristes, porque não aceitava; outros iam procurá-lo e queriam receber algo dele como que de um famoso ancião; não tendo ele, porém, o que lhes dar, também estes se iam tristes. Disse então o ancião: “Que farei, já que se entristecem tanto os que trazem como os que querem receber? Eis o que convém fazer: quando alguém trouxer algo, aceitarei; e, quando alguém pedir, darei o mesmo”. Fazendo assim, tranquilizava-se, e satisfazia a todos.

§3

Chegou-se um irmão egípcio ao Abade Zeno na Síria, e pôs-se a acusar-se de seus pensamentos em presença do ancião. Este admirou-se e disse: “Os egípcios ocultam as virtudes que têm, e acusam sempre os defeitos que não têm. Ao contrário, os Sírios e Gregos dizem possuir as virtudes que não têm, e ocultam os defeitos que têm”.

§4

Alguns irmãos foram procurar o Abade Zeno e perguntaram-lhe: “Que significa o que está escrito em Job: ‘O céu não é puro em presença dele?’ (1). Respondeu-lhes o ancião: “Os irmãos esqueceram os seus pecados e perscrutam os céus. Esta é a interpretação da frase. Pois que Ele só é puro, por isto disse: ‘O céu não é puro’”.

§5

Do Abade Zeno contavam que, quando residia na Cétia, saiu da cela à noite como que para ir para o pântano. Tendo, porém, perdido o caminho, passou três dias e três noites vagueando; após o que, cansado, desfaleceu e caiu, prestes a morrer. Eis, todavia, que apareceu diante dele um menino, o qual trazia pão e uma caneca d’água e lhe disse: “Levanta-te, come”. Ele, levantando-se, orou, julgando que se tratava de uma imaginação (2). Disse o menino: “Fizeste bem”. E de novo orou uma segunda vez e uma terceira vez. Aquele então repetiu: “Fizeste bem”. Depois disto, o ancião levantou-se, tomou o alimento e comeu. Ao terminar, falou-lhe o menino: “Quanto vagueaste, tanto te afastaste da tua cela; mas levanta-te, e segue-me”. E logo encontrou-se em sua cela. Disse-lhe então o ancião: “Entra, faze uma oração por nós”. E o ancião entrou; o menino, porém, desapareceu.

§6

De outra feita, o mesmo Abade Zeno andava pela Palestina; cansou-se, e sentou-se perto de um pé de pepinos para comer. Sugeriu-lhe, então, o seu pensamento: “Colhe para ti um pepino e come-o. Pois que mal há nisso?” Ele respondeu ao seu pensamento: “Os ladrões são levados para o castigo. Experimenta, pois, se podes suportar o castigo”. E, levantando-se, colocou-se ao ardor do sol durante cinco dias; em consequência ficou como que torrado, e disse: “Não podes suportar, não furtes para comer”.

§7

Disse o Abade Zeno: “Aquele que quer que Deus ouça sem demora a sua prece, assim faça: quando se levantar e estender as mãos para Deus, antes de qualquer intenção, mesmo antes das da própria alma, reze de coração pelos seus inimigos; em virtude deste ato bom, Deus o atenderá em tudo que ele pedir”.

§8

Narravam que numa aldeia havia alguém que jejuava muito, de modo que lhe tinham dado a alcunha de “o Jejuador”. Tendo o Abade Zeno ouvido falar dele, mandou-o chamar. Aquele veio com alegria. Tendo feito oração, sentaram-se; e o ancião pôs-se a trabalhar em silêncio. Não encontrando como conversar com ele, o Jejuador começou a ser assaltado pela acédia (1); e disse ao ancião: “Reza por mim, Abade, porque quero ir embora”. Respondeu este: “Por quê?” Aquele continuou: “Porque o meu coração está como que a arder, e não sei o que tem; quando eu estava na aldeia, jejuava até o pôr do sol, e, não obstante, nunca estive assim”. Explicou, pois, o ancião: “Na aldeia tu te alimentavas dos teus ouvidos (2); volta, porém, e para o futuro come à hora nona (3); e, quando fizeres alguma coisa de bem, faze-a secretamente”. Ele pôs-se a fazer assim; com aflição, porém, aguardava a hora nona. Então os que o haviam conhecido, diziam: “O Jejuador está possesso do demônio”. À vista disso, ele foi ter com o ancião e contou-lhe tudo. Este respondeu: “Tal caminho é, sim, conforme Deus”.

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