8 apoftegmas
Abade Zeno
Disse o Abade Zeno, o discípulo do bem-aventurado Silvano: “Não habites em lugar famoso, nem residas com homem que tenha nome célebre, nem em tempo algum lances fundamento para construir uma cela para ti”.
Do Abade Zeno referiam que a princípio não queria aceitar coisa nenhuma de quem quer eu fosse. Por conseguintes, os que lhe levavam presentes, iam-se tristes, porque não aceitava; outros iam procurá-lo e queriam receber algo dele com que de um famoso ancião; não tendo ele, porém, o que lhes dar, também estes se iam tristes. Disse então o ancião: “Que farei, já que se entristecem tanto os que trazem como os que querem receber? Eis o que convém fazer: quando alguém trouxer algo, aceitarei; e, quando alguém pedir, darei o mesmo”. Fazendo assim, tranquilizava-se, e satisfazia a todos.
Chegou-se um irmão egípcio ao Abade Zeno na Síria, e pôs-se a acusar-se de seus pensamentos em presença do ancião. Este admirou-se e disse: “Os egípcios ocultam as virtudes que têm, e acusam sempre os defeitos que não têm. Ao contrário, os Sírios e Gregos dizem possuir as virtudes que não têm, e ocultam os defeitos que têm”.
Alguns irmãos foram procurar o Abade Zeno e perguntaram-lhe: “Que significa o que está escrito em Jó: ‘O céu não é puro em presença dele?’ (1). Respondeu-lhes o ancião: “Os irmãos esqueceram os seus pecados e perscrutam os céus. Esta é a interpretação da frase. Pois que Ele só é puro, por isto disse: ‘O céu não é puro’”.
Do Abade Zeno contavam que, quando residia na Cétia, saiu da cela à noite como que para ir para o pântano. Tendo, porém, perdido o caminho, passou três dias e três noites vagueando; após o que, cansado, desfaleceu e caiu, prestes a morrer. Eis, todavia, que apareceu diante dele um menino, o qual trazia pão e uma caneca d’água e lhe disse: “Levanta-te, come”. Ele, levantando-se, orou, julgando que se tratava de uma imaginação (2). Disse o menino> “Fizeste bem”. E de novo orou uma segunda vez e uma terceira vez. Aquele então repetiu: “Fizeste bem”. Depois disto, o ancião levantou-se, tomou o alimento e comeu. Ao terminar, falou-lhe o menino: “Quanto vagueaste, tanto te afastaste da tua cela; mas levanta-te, e segue-me”. E logo encontrou-se em sua cela. Disse-lhe então o ancião: “Entra, faze uma oração por nós”. E o ancião entrou; o menino, porém, desapareceu.
De outra feita, o mesmo Abade Zeno andava pela Palestina; cansou-se, e sentou-se perto de um pé de pepinos para comer. Sugeriu-lhe, então, o seu pensamento: “Colhe para ti um pepino e come-o. Pois que mal há nisso?” Ele respondeu ao seu pensamento: “Os ladrões são levados para o castigo. Experimenta, pois, se podes suportar o castigo”. E, levantando-se, colocou-se ao ardor do sol durante cinco dias; em consequência ficou como que torrado, e disse: “Não podes suportar, não furtes para comer”.
Disse o Abade Zeno: “Aquele que quer que Deus ouça sem demora a sua prece, assim faça: quando se levantar e estender as mãos para Deus, antes de qualquer intenção, mesmo antes das da própria alma, reze de coração pelos seus inimigos; em virtude deste ato bom, Deus o atenderá em tudo que ele pedir”.
Narravam que numa aldeia havia alguém que jejuava muito, de modo que lhe tinham dado a alcunha de “o Jejuador”. Tendo o Abade Zeno ouvido falar dele, mandou-o chamar. Aquele veio com alegria. Tendo feito oração, sentaram-se; e o ancião pôs-se a trabalhar em silêncio. Não encontrando como conversar com ele, o Jejuador começou a ser assaltado pela acédia (1); e disse ao ancião: “Reza por mim, Abade, porque quero ir embora”. Respondeu este: “Por quê?” Aquele continuou: “Porque o meu coração está como que a arder, e não sei o que tem; quando eu estava na aldeia, jejuava até o pôr do sol, e, não obstante, nunca estive assim”. Explicou, pois, o ancião: “Na aldeia tu te alimentavas dos teus ouvidos (2); volta, porém, e para o futuro come à hora nona (3); e, quando fizeres alguma coisa de bem, faze-a secretamente”. Ele pôs-se a fazer assim; com aflição, porém, aguardava a hora nona. Então os que o haviam conhecido, diziam: “O Jejuador está possesso do demônio”. À vista disso, ele foi ter com o ancião e contou-lhe tudo. Este respondeu: “Tal caminho é, sim, conforme Deus”.