Antigo Testamento
Livro da Sabedoria
Ver todosDizem, com efeito, (os ímpios) no desvairamento dos pensamentos: O tempo da nossa vida é curto e cheio de tédio, não há remédio quando chega a morte, e também não se conhece ninguém que tenha voltado da morada dos mortos.
Por acaso viemos à existência, e depois desta vida seremos como se nunca tivéramos sido. A respiração nos nossos narizes é um fumo, e o pensamento é uma centelha (que salta) do bater do nosso coração.
Apagada ela, será o nosso corpo reduzido a cinza, e o espírito se dissipará como um ar subtil. A nossa vida se desvanecerá como o rasto duma nuvem, e se dissipará como um nevoeiro, afugentado pelos raios do sol, desfeito pelo seu calor.
O nosso nome com o tempo ficará sepultado no esquecimento, e ninguém se lembrará das nossas obras.
A nossa vida é a passagem duma sombra, o nosso fim é seu retorno, porque é posto o selo e ninguém volta.
Vinde, pois, e gozemos dos bens presentes, apressemo-nos a gozar das criaturas com o ardor da juventude.
lnebriemo-nos de vinho precioso e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera,
Coroemo-nos de rosas, antes que murchem: não haja prado algum em que a nossa voluptuosidade não passe.
Nenhum de nós falte às nossas orgias. Deixemos em toda a parte sinais da nossa alegria, porque esta é a parte que nos toca, esta é a nossa sorte.
Oprimamos o justo que é pobre, não poupemos a viúva, nem respeitemos as cãs do velho, carregado de anos.
Seja a nossa força a lei da justiça, porque aquilo que é fraco para nada serve.
Armemos, pois, laços ao justo, porque nos é molesto, contrário às nossas obras; lança-nos em rosto as transgressões da lei, acusa-nos de faltas contra a nossa educação.
Ele afirma que tem a ciência de Deus, chama-se a si filho do Senhor.
É a condenação; dos nossos próprios pensamentos,
só o vê-lo nos é insuportável, porque a sua vida não é semelhante à dos outros, os seus caminhos são completamente diferentes.
Somos considerados por ele como escórias, e afasta-se do nosso modo de viver como duma coisa imunda. Proclama feliz a sorte final dos justos, e gloria-se de ter a Deus por pai.
Vejamos, pois; se as suas palavras são verdadeiras, observemos o que lhe acontecerá, ao findar a sua vida.
Porque, se o justo é filho de Deus, (Deus) o amparará, e o livrará das mãos dos seus inimigos.
Ponhamo-lo à prova por meio de ultrajes e tormentos, para que conheçamos a sua mansidão e provemos a sua paciência.
Condenemo-lo a uma morte infame, pois, segundo diz, Deus o protegerá.
Assim pensam, mas enganam-se, porque a sua malícia os cegou.
Ignoram os desígnios secretos de Deus, não esperam recompensa da santidade, não acreditam no prêmio reservado às almas puras.
Com efeito Deus criou o homem para a imortalidade, fê-lo à imagem da sua própria natureza.
Por inveja do demônio, é que entrou no mundo a morte;
prová-la-ão os que lhe pertencem.