Capítulo 1
A Unidade do Amor na Criação e na História da Salvação
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No debate filosófico e teológico, distinguem-se habitualmente três palavras gregas relativas ao amor: eros, philia e agape. Na literatura cristã, o termo agape tornou-se predominante, exprimindo o amor oblativo, o dom de si. O eros, que designa o amor entre homem e mulher, que não nasce do pensamento ou da vontade mas de certo modo impõe-se ao ser humano, foi praticamente excluído da linguagem bíblica. A fé cristã, porém, não rejeitou o eros como tal, mas declarou guerra ao seu desvio destruidor, porque a falsa divinização do eros priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. As prostitutas no templo não eram tratadas como seres humanos e pessoas, mas serviam apenas como instrumentos para suscitar a «loucura divina».
Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que embora não morresse, teria degenerado em vício. Nietzsche exprimia assim uma percepção muito difundida: a Igreja, com os seus mandamentos e proibições, não torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Não coloca sinais de proibição precisamente ali onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino? Na realidade, o eros necessita de disciplina, de purificação, de amadurecimento para não perder a sua dignidade originária e não se degradar em puro prazer. O eros, quando purificado e amadurecido, torna-se verdadeiramente amor no sentido pleno da palavra.
O amor é uma realidade única, mas com dimensões diversas; cada vez uma ou outra pode sobressair mais. Onde as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, em todo o caso, uma forma redutora do amor. No fundo, o eros e o agape — o amor ascendente e o amor descendente — nunca se podem separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. O Cântico dos Cânticos, um dos livros mais belos da Sagrada Escritura, celebra o amor humano na sua plenitude, mostrando que eros e agape se entrelaçam e se completam.
A verdadeira novidade do Novo Testamento não reside em ideias novas, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos — um realismo inaudito. Já no Antigo Testamento, a novidade bíblica não consiste simplesmente em noções abstratas, mas na ação imprevisível e, de certa forma, inaudita de Deus. Esta ação de Deus adquire agora a sua forma dramática no facto de que, em Jesus Cristo, o próprio Deus vai atrás da ovelha perdida, da humanidade sofredora e extraviada. Quando Jesus fala nas suas parábolas do pastor que vai atrás da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pródigo e o abraça, tudo isto não são meras palavras, mas a explicação do seu próprio ser e agir.
A imagem bíblica de Deus e a imagem do homem que lhe corresponde sofrem, na morte de Jesus na cruz, uma surpreendente revelação. Deus ama tanto que se faz vulnerável, que aceita o sofrimento e a morte por amor da sua criatura. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala São João (cf. Jo 19, 37), compreende aquilo que foi o ponto de partida desta Carta Encíclica: «Deus é amor» (1 Jo 4, 8). É ali, na cruz, que esta verdade se pode contemplar. E, a partir dali, se deve agora definir o que é o amor. A partir deste olhar, o cristão encontra a orientação do seu viver e do seu amar. A Eucaristia atrai-nos ao acto oblativo de Jesus: nós não recebemos somente de modo estático o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na dinâmica da sua doação.
O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é primariamente uma tarefa para cada fiel, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local até à Igreja universal. Também a Igreja enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor precisa também de organização, como pressuposto para um serviço comunitário ordenado. A consciência desta responsabilidade foi de importância constitutiva na Igreja desde os seus inícios. A comunidade dos crentes não olhou nunca para as pessoas necessitadas com indiferença; pelo contrário, desde os primeiros tempos apostólicos, a caridade organizada foi parte essencial da vida eclesial.
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