Capítulo 23
A difusão da devoção ao Coração de Cristo
3 min de leitura
O lado trespassado, onde reside o amor de Cristo, do qual, por sua vez, brota a vida da graça, assumiu gradualmente a forma do coração, sobretudo na vida monástica. Sabemos que, ao longo da história, o culto ao Coração de Cristo não se manifestou de modo igual, e que os aspectos desenvolvidos nos tempos modernos, relacionados com diversas experiências espirituais, não podem ser extrapolados para as formas medievais e muito menos para as formas bíblicas, nas quais podemos vislumbrar as sementes deste culto. No entanto, hoje a Igreja não despreza nenhum dos bens que o Espírito Santo nos deu ao longo dos séculos, sabendo que será sempre possível reconhecer em certos pormenores da devoção um sentido mais claro e pleno, ou compreender e desvendar novos aspectos dela.
Várias mulheres santas relataram experiências de encontro com Cristo, caracterizado pelo repouso no Coração do Senhor, fonte de vida e de paz interior. É o caso de Santa Lutgarda, Santa Matilde de Hackeborn, Santa Ângela de Foligno, Juliana de Norwich, entre outras. Santa Gertrudes de Helfta, monja cisterciense, contou um momento de oração durante o qual reclinou a cabeça sobre o Coração de Cristo e escutou os seus batimentos. Num diálogo com São João Evangelista, ela pergunta-lhe por que razão, no seu Evangelho, não fala do que viveu quando teve a mesma experiência. Gertrudes conclui que «a doçura destes batimentos foi reservada aos tempos modernos, para que, ao escutá-los, o mundo envelhecido e morno possa renovar-se no amor de Deus» . Poderíamos pensar que se trata de um anúncio referente ao nosso tempo, um apelo a reconhecer como este mundo se tornou âvelhoâ, necessitado de receber a mensagem sempre nova do amor de Cristo? Santa Gertrudes e Santa Matilde foram consideradas entre «as mais íntimas confidentes do Sagrado Coração» .
Os monges cartuxos, encorajados sobretudo por Ludolfo da Saxónia, encontraram na devoção ao Sagrado Coração um meio de encher de afeto e proximidade a sua relação com Jesus Cristo. Quem entra pela ferida do seu Coração é abrasado em chamas de afeto. Santa Catarina de Sena escreveu que os sofrimentos que o Senhor suportou não são algo que possamos presenciar, mas que o Coração aberto de Cristo é para nós a possibilidade de um encontro real e pessoal com tanto amor: «Eis quanto eu manifestei na chaga do meu peito, no momento em que compreendeste o segredo do meu coração. Fiz ver que meu amor por vós é mais profundo de quanto possa indicar a dor passageira» .
A devoção ao Coração de Cristo transcendeu gradualmente a vida monástica e encheu a espiritualidade de santos mestres, pregadores e fundadores de congregações religiosas que a difundiram nas regiões mais remotas da terra .
Particularmente interessante foi a iniciativa de São João Eudes, que «depois de ter pregado com os seus missionários uma fervorosíssima missão em Rennes, conseguiu que o bispo aprovasse nessa diocese a celebração da festa do Coração Adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi a primeira vez que esta festa foi oficialmente autorizada na Igreja. Mais tarde, os bispos de Coutances, de Evreux, de Bayeux, de Lisieux e de Rouen autorizaram a mesma festa para as suas respectivas dioceses entre os anos de 1670 e 1671» .
Deslize para navegar entre capítulos