Proêmio
Introdução
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A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em definitivo, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um caminho que se desenvolveu — não podia ser de outro modo — no âmbito da autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, tornando-se cada vez mais urgente para ele a questão do sentido das coisas e da sua própria existência.
A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este caminho de busca. Desde que, no Mistério Pascal, recebeu o dom da verdade última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6). Entre os diversos serviços que deve oferecer à humanidade, há um que a envolve de modo absolutamente peculiar: é a diaconia da verdade. Esta missão, por um lado, torna a comunidade crente participante do esforço comum que a humanidade realiza para alcançar a verdade, e, por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das certezas adquiridas, embora sabendo que toda a verdade alcançada é sempre apenas uma etapa rumo àquela verdade plena que se há-de manifestar na revelação última de Deus.
O homem, por sua natureza, procura a verdade. Esta busca não se destina apenas à conquista de verdades parciais, factuais ou científicas; não procura apenas o verdadeiro bem para cada uma das suas decisões. A sua busca tende para uma verdade ulterior que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que não pode desembocar senão no absoluto. Graças às capacidades inerentes ao pensamento, o homem é capaz de encontrar e reconhecer uma tal verdade. Enquanto vital e essencial para a sua existência, tal verdade é adquirida não só por via racional, mas também por meio da confiança noutras pessoas, que possam garantir a certeza e a autenticidade da própria verdade. A capacidade e a opção de se confiar a si mesmo e à própria vida a uma outra pessoa constituem certamente um dos actos antropologicamente mais significativos e expressivos.
Não se deve esquecer que também a razão necessita de ser sustentada na sua busca por um diálogo confiante e uma amizade sincera. O clima de suspeita e de desconfiança, que por vezes rodeia a investigação especulativa, esquece o ensinamento dos filósofos antigos, que consideravam a amizade como um dos contextos mais adequados para o bom filosofar. A partir deste enquadramento, desejo propor algumas reflexões sobre a relação entre a fé e a filosofia, indicando no Magistério da Igreja um ponto de referência. Sou movido pelo convicção de que, sobretudo num tempo de grandes transformações culturais, é necessário e urgente que a relação entre a fé e a razão seja de novo proposta com clareza, para que o homem contemporâneo possa responder ao apelo que ressoa do rosto de Cristo.
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