Capítulo 2
Credo ut Intelligam
3 min de leitura
«Crede para compreender»: esta máxima de Santo Agostinho exprime uma convicção profunda da tradição cristã. A fé pede que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão; e a razão, no auge da sua busca, admite como necessário aquilo que a fé apresenta. Santo Anselmo, sublinhando esta circularidade, escreveu: «Como a ordem justa exige que experimentemos primeiro a profundidade da fé antes de presumirmos discuti-la com a razão, assim me parece negligência se, uma vez confirmados na fé, não procuramos compreender aquilo que cremos». A inteligência da fé não suprime o mistério, antes o ilumina com uma luz nova. Ao compreender, ainda que parcialmente, aquilo que crê, o fiel é introduzido mais profundamente na verdade divina.
Na base da busca de Santo Anselmo, está a convicção de que a fé solicita a inteligência a abrir-se ao mistério e a dar razão da sua esperança. Não se trata de compreender racionalmente o mistério, porque isso seria impossível. Trata-se antes de uma penetração do mistério pela razão, que se deixa iluminar pela fé. Quando a razão consegue intuir e formular os princípios fundamentais do ser, quando os relaciona com a luz que provém da revelação, está a cumprir a sua tarefa mais nobre. O trabalho teológico, neste sentido, é o exercício mais alto da inteligência humana, porque se aplica ao objecto mais elevado que se pode conceber: o próprio Deus na sua verdade e no seu amor.
Ao longo da história da Igreja, grandes doutores demonstraram como a fé e a razão se iluminam mutuamente. São Tomás de Aquino ocupa um lugar eminente nesta tradição. Ao reconhecer na natureza a possibilidade de acesso ao conhecimento de Deus, São Tomás desenvolveu uma teologia que é, ao mesmo tempo, profundamente fiel à revelação e aberta ao contributo da razão filosófica. Na sua obra, a razão humana não se encontra diminuída pela adesão à fé; pelo contrário, é estimulada a penetrar mais profundamente nos mistérios divinos. A distinção tomista entre os preâmbulos da fé e os artigos de fé mostra como o itinerário racional pode conduzir até ao limiar do mistério, cabendo depois à fé acolher o dom da revelação divina.
A harmonia entre a fé e a razão significa, antes de tudo, que Deus não é estranho à razão e que a razão não é estranha ao mistério de Deus. O Deus revelado na Bíblia é o Logos, a Razão criadora que está na origem de todas as coisas. Quando a razão humana busca a verdade com honestidade e rigor, caminha — ainda que nem sempre o saiba — rumo a Deus. A busca filosófica autêntica, mesmo quando não atinge explicitamente o Deus da revelação, prepara o terreno para o encontro com Cristo, que é a Verdade em pessoa. Por isso, a Igreja sempre defendeu o valor da filosofia e encorajou o seu exercício como propedêutica à fé.
Deslize para navegar entre capítulos