Capítulo 4
As Intervenções do Magistério em Matéria Filosófica
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A Igreja, no exercício do seu magistério, não se limitou a pronunciar-se sobre questões estritamente teológicas, mas interveio também em matéria filosófica sempre que esteve em causa a compreensão recta da fé. Estas intervenções não devem ser vistas como uma intromissão indevida no campo da filosofia, mas como um serviço à verdade. Quando certas correntes filosóficas ameaçam destruir os fundamentos racionais da fé ou conduzir os fiéis ao erro, o Magistério tem o dever de intervir para proteger o depósito da fé e orientar os crentes. A história mostra que estas intervenções foram, na sua maioria, oportunas e fecundas para o desenvolvimento tanto da teologia como da própria filosofia.
O Concílio Vaticano I, na Constituição Dogmática Dei Filius, reafirmou solenemente a capacidade da razão humana de conhecer a existência de Deus com certeza, a partir das coisas criadas. Esta afirmação, longe de ser uma limitação da liberdade filosófica, constituiu uma defesa da dignidade da razão contra o fideísmo e o tradicionalismo, que pretendiam negar qualquer valor ao conhecimento racional de Deus. Ao mesmo tempo, o Concílio afirmou a necessidade da revelação sobrenatural para que o homem pudesse conhecer com facilidade, firme certeza e sem mistura de erro, mesmo aquelas verdades religiosas que, de si, não são inacessíveis à razão humana. Deste modo, o Magistério confirmou a harmonia entre a fé e a razão, negando tanto o racionalismo como o fideísmo.
A encíclica Aeterni Patris do Papa Leão XIII marcou um momento decisivo na história das relações entre a Igreja e a filosofia. Ao recomendar o estudo e o ensino da filosofia de São Tomás de Aquino, o Papa não pretendeu impor um sistema filosófico único, mas oferecer um modelo de integração entre fé e razão que pudesse servir de referência para a reflexão teológica e filosófica. O tomismo, na sua essência, não é um sistema fechado, mas um método aberto que valoriza a capacidade da razão de alcançar a verdade do ser e que reconhece, ao mesmo tempo, a necessidade da revelação para completar e elevar o conhecimento natural. A Igreja continua a propor este modelo como fecundo e actual, sem excluir os contributos legítimos de outras tradições filosóficas.
No nosso tempo, a tarefa de articular fé e razão é mais urgente do que nunca. A cultura contemporânea vive uma profunda fragmentação do saber, que torna cada vez mais difícil uma visão unitária da realidade e do homem. As ciências particulares, com os seus extraordinários progressos, tendem a fechar-se sobre si mesmas e a ignorar as questões fundamentais que transcendem o seu método. A filosofia, por sua vez, parece ter abandonado, em muitos casos, a pretensão de alcançar a verdade, contentando-se com análises parciais e provisórias. Diante deste cenário, a fé cristã convida a razão a recuperar a audácia da busca da verdade última, oferecendo-lhe o horizonte da revelação como garantia de que essa busca não é vã e de que a verdade, na sua plenitude, é acessível ao homem.
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