Capítulo 5
Parte I — Cap. IV: Missão da Igreja no Mundo Contemporâneo
Tudo quanto dissemos acerca da dignidade da pessoa humana, da comunidade dos homens, do significado profundo da actividade humana, constitui o fundamento das relações entre a Igreja e o mundo e a base do seu diálogo recíproco. Pelo que, no presente capítulo, pressupondo tudo o que o Concílio já declarou acerca do mistério da Igreja, considerar-se-á a mesma Igreja enquanto existe neste mundo e com ele vive e actua. A Igreja, que tem a sua origem no amor do eterno Pai, foi fundada, no tempo, por Cristo Redentor, e reúne-se no Espírito Santo, tem um fim salvador e escatológico, o qual só se poderá atingir plenamente no outro mundo. Mas ela existe já actualmente na terra, composta de homens que são membros da cidade terrena e chamados a formar já na história humana a família dos filhos de Deus, a qual deve crescer continuamente até à vinda do Senhor. Unida em vista dos bens celestes e deles enriquecida, esta família foi «por Cristo constituída e organizada neste mundo como sociedade» e dotada dos «meios próprios duma união visível e social», sendo simultâneamente «agrupamento visível e comunidade espiritual», e caminha juntamente com toda a humanidade e participa da mesma sorte terrena do mundo, ao mesmo tempo que é como o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus. Esta compenetração da cidade terrena com a celeste só pela fé pode ser percebida; mais, permanece como mistério da história humana, sempre perturbada pelo pecado, até à plena manifestação da claridade dos filhos de Deus. Mas, ao procurar o seu fim salvífico, a Igreja não só comunica ao homem a vida divina, como também espalha sobre todo o mundo, de algum modo, o reflexo da sua luz, principalmente quando cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a consistência da sociedade e confere à actividade quotidiana dos homens maior profundidade de sentido e significado. A Igreja acredita, pois, que por meio de cada um dos seus membros e de toda a sua comunidade, muito pode contribuir para tornar mais humana a família dos homens e a sua história.
O homem actual está a caminho de um desenvolvimento mais pleno da personalidade e uma maior descoberta e afirmação dos próprios direitos. Tendo a Igreja, por sua parte, a missão de manifestar o mistério de Deus, último fim do homem, ela descobre ao mesmo tempo ao homem o sentido da sua existência, a verdade profunda acerca dele mesmo. A Igreja sabe muito bem que só Deus, a quem serve, pode responder às aspirações mais profundas do coração humano, que nunca plenamente se satisfaz com os alimentos terrestres. Sabe também que o homem, solicitado pelo Espírito de Deus, nunca será totalmente indiferente ao problema religioso, como o confirmam não só a experiência dos tempos passados, mas também inúmeros testemunhos do presente. Com efeito, o homem sempre desejará saber, ao menos confusamente, qual é o significado da sua vida, da sua actividade e da sua morte. E a própria presença da Igreja lhe traz à mente estes problemas. Mas só Deus, que criou o homem à sua imagem e o remiu, dá plena resposta a estas perguntas, pela revelação em Cristo seu Filho feito homem. Aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem. Apoiada nesta fé, a Igreja pode subtrair a dignidade da natureza humana a quaisquer flutuações de opiniões, por exemplo, as que rebaixam exageradamente o corpo humano ou, pelo contrário, o exaltam sem medida. Nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à Igreja. Pois este Evangelho anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus; rejeita toda a espécie de servidão, a qual tem a sua última origem no pecado; respeita escrupulosamente a dignidade da consciência e a sua livre decisão; sem descanso recorda que todos os talentos humanos devem redundar em serviço de Deus e bem dos homens; e a todos recomenda, finalmente, a caridade. É o que corresponde à lei fundamental da economia cristã. Porque, embora seja o mesmo Deus o Criador e o Salvador, o senhor da história humana e o da história da salvação, todavia, segundo a ordenação divina, a justa autonomia das criaturas e sobretudo do homem, não só não é delimitada mas antes é restituída à sua dignidade e nela confirmada. Por isso, a Igreja, em virtude do Evangelho que lhe foi confiado, proclama os direitos do homem e reconhece e tem em grande apreço o dinamismo do nosso tempo, que por toda a parte promove tais direitos. Este movimento, porém, deve ser penetrado pelo espírito do Evangelho, e defendido de qualquer espécie de falsa autonomia. Pois estamos sujeitos à tentação de julgar que os nossos direitos pessoais só são plenamente assegurados quando nos libertamos de toda a norma da lei divina. Enquanto que, por este caminho, a dignidade da pessoa humana, em vez de se salvar, perde-se.
A unidade da família humana recebe um grande reforço e encontra o seu acabamento na unidade da família dos filhos de Deus fundada em Cristo. Certamente, a missão própria confiada por Cristo à sua Igreja, não é de ordem política, económica ou social: o fim que lhe propôs é, com efeito, de ordem religiosa. Mas desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina. E também, quando for necessário, tendo em conta as circunstâncias de tempos e lugares, pode ela própria, e até deve, suscitar obras destinadas ao serviço de todos, sobretudo dos pobres, tais como obras caritativas e outras semelhantes. A Igreja reconhece, além disso, tudo o que há de bom no dinamismo social hodierno; sobretudo o movimento para a unidade, o processo duma sã socialização e associação civil e económica. Promover a unidade é, efectivamente, algo que se harmoniza com a missão essencial da Igreja, pois ela é «em Cristo, como que o sacramento ou sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano». Ela própria manifesta assim ao mundo que a verdadeira união social eterna flui da união dos espíritos e dos corações, daquela fé e caridade em que indissolùvelmente se funda, no Espírito Santo, a sua própria unidade. Porque a energia que a Igreja pode insuflar à sociedade actual consiste nessa fé e caridade efectivamente vividas e não em qualquer domínio externo, actuado com meios puramente humanos. Além disso, dado que a Igreja não está ligada, por força da sua missão e natureza, a nenhuma forma particular de cultura ou sistema político, económico ou social, pode, graças a esta sua universalidade, constituir um laço muito estreito entre as diversas comunidades e nações, contanto que nela confiem e lhe reconheçam a verdadeira liberdade para cumprir esta sua missão.
O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a procurarem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui cidade permanente mas que buscamos a futura, pensam que podem por isso descurar os seus deveres terrenos, sem se darem conta de que a própria fé, tendo em conta a vocação de cada um, mais os obriga a cumpri-los. Mas não é menos grave o erro dos que, pelo contrário, pensam poder entregar-se plenamente aos assuntos terrestres, como se estes fossem de todo alheios à vida religiosa, a qual consistiria apenas no exercício do culto e no cumprimento de certos deveres morais. Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo. Já no Antigo Testamento, os profetas veementemente atacaram este escândalo; e, no Novo Testamento, sobretudo, o próprio Jesus Cristo o ameaçou com graves penas. Não se criem, pois, oposições artificiais entre as actividades profissionais e sociais, por um lado, e a vida religiosa, por outro. O cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e para com o próprio Deus, e põe em perigo a sua salvação eterna. Seguindo o exemplo de Cristo que exerceu o ofício de operário, alegrem-se os cristãos e não entristeçam-se, por poderem exercer todas as suas actividades terrenas, unindo numa síntese vital os esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos e técnicos com os bens religiosos, sob cuja altíssima ordenação tudo se coordena para glória de Deus. Aos leigos competem propriamente, se bem que não exclusivamente, os deveres e actividades seculares. Quando, pois, eles agem como cidadãos do mundo, individualmente ou associados, não só devem respeitar as leis próprias de cada disciplina, como procurar adquirir nela uma verdadeira competência. De bom grado colaborarão com os que procuram os mesmos objectivos. No respeito pelas exigências da fé e imbuídos da sua força, concebam sem hesitação, quando for necessário, novas iniciativas e levem-nas a bom termo. Cabe à consciência, previamente formada, inscrever a lei divina na vida da cidade terrena. Dos sacerdotes, os leigos devem esperar luz e força espiritual. Não pensem, porém, que os seus pastores estejam sempre em condições de lhes poder dar imediatamente a solução concreta de todas as questões, mesmo graves, que surjam, ou que essa seja a sua missão. Tomem antes sobre si, à luz da sabedoria cristã e com a ajuda atenta do magistério, a própria responsabilidade. A consciência cristã deve muitas vezes guiá-los a escolher a melhor solução para problemas contingentes. Mas nenhum fiel deve arrogar-se o nome da Igreja em favor da sua opinião exclusiva. Procurem sempre, num diálogo sincero, esclarecer-se mutuamente, guardando entre si a caridade e tendo em vista sobretudo o bem comum. Os leigos, que devem tomar parte activa em toda a vida da Igreja, são não só obrigados a animar o mundo com o espírito cristão, mas também chamados a ser testemunhas de Cristo em todas as coisas, mesmo no seio da comunidade humana. Os Bispos, a quem foi confiado o encargo de dirigir a Igreja de Deus, preguem juntamente com os seus sacerdotes a mensagem de Cristo, de tal modo que todas as actividades temporais dos fiéis sejam banhadas pela luz do Evangelho. Tenham, além disso, bem presente todos os pastores que, pelas suas relações e solicitude quotidianas, manifestam ao mundo o rosto da Igreja, segundo o qual os homens ajuízam da força e da verdade da mensagem cristã. Com a sua vida e palavras, juntamente com os religiosos e os fiéis, mostrem que a Igreja, só pela sua presença, com todos os dons que encerra, é a inesgotável fonte daquelas forças de que o mundo actual mais carece. Apliquem-se com diligência ao estudo, para serem capazes de tomar parte nos diálogos a manter com o mundo e com os homens de qualquer opinião. Mas tenham sobretudo presentes na mente estas palavras do Concílio: «Porque o género humano está hoje cada vez mais unificado no plano civil, económico e social, tanto mais importa que os sacerdotes, com o esforço e a direcção dos Bispos, evitem toda a causa de dispersão, a fim de que toda a humanidade chegue à unidade da família de Deus».
Assim como interessa ao mundo reconhecer a Igreja como realidade social e fermento da história, assim também a Igreja não ignora quanto recebeu da história e da evolução do género humano. A experiência dos séculos passados, os progressos científicos, os tesouros escondidos nas diversas formas de cultura humana, por meio das quais mais plenamente se manifesta a natureza do homem e se abrem novos caminhos para a verdade, aproveitam igualmente à Igreja. Esta, com efeito, desde os começos da sua história, aprendeu a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou, além disso, ilustrá-la com o saber filosófico; e isto com o fim de adaptar o Evangelho à compreensão de todos e às exigências dos sábios. E esta pregação adaptada da palavra revelada deve permanecer como lei de toda a evangelização. Porque assim se pode suscitar em todos os povos a capacidade de exprimir a mensagem de Cristo segundo o modo próprio de cada um, ao mesmo tempo que se promove um intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos povos. Para aumentar este intercâmbio, a Igreja precisa, sobretudo no nosso tempo, marcado pelas rápidas transformações e crescente diversidade de opiniões, da ajuda particular daqueles que, vivendo no mundo, são versados nas várias instituições e disciplinas, e compreendem a sua mentalidade profunda, quer se trate de crentes, quer de não-crentes. É, pois, a todo o Povo de Deus, nomeadamente aos pastores e teólogos, que compete, com a ajuda do Espírito Santo, ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra divina, de modo que a verdade revelada possa ser sempre mais intimamente percebida, mais bem compreendida e apresentada de modo mais adequado. A Igreja, dotada duma estrutura social visível, sinal da sua unidade em Cristo, pode também enriquecer-se e enriquece-se efectivamente com a evolução da vida social humana, não porque lhe falte algo na constituição que Cristo lhe deu, mas para a conhecer mais profundamente, melhor a exprimir e mais felizmente a adaptar aos nossos tempos. Ela reconhece com gratidão que, tanto na sua comunidade como nos seus membros individuais, recebe variados auxílios da parte dos homens de qualquer grau ou condição. Porque todo aquele que promove a comunidade humana no plano da família, da cultura, da vida económico-social e da política, tanto nacional como internacional, coopera não pouco, segundo o desígnio de Deus, também com a comunidade eclesial, na medida em que esta depende de factores externos. Mais, a Igreja confessa que muito aproveitou e pode aproveitar da própria oposição daqueles que a hostilizam ou perseguem.
Ao ajudar o mundo e recebendo dele ao mesmo tempo muitas coisas, o único fim da Igreja é o advento do reino de Deus e o estabelecimento da salvação de todo o género humano. E todo o bem que o Povo de Deus pode prestar à família dos homens durante o tempo da sua peregrinação deriva do facto que a Igreja é o «sacramento universal da salvação», manifestando e actuando simultâneamente o mistério do amor de Deus pelos homens. Com efeito, o próprio Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, fez-se homem, para, homem perfeito, a todos salvar e tudo recapitular. O Senhor é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações. Foi Ele que o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e colocou à sua direita, estabelecendo-o juiz dos vivos e dos mortos. Vivificados e reunidos no seu Espírito, caminhamos em direcção à consumação da história humana, a qual corresponde plenamente ao seu desígnio de amor: «recapitular todas as coisas em Cristo, tanto as do céu como as da terra» (Ef. 1,10). O próprio Senhor o diz: «Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim» (Apoc. 22, 12-13).