Capítulo 7
A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e a Sua União com a Igreja Celeste
A Igreja, à qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual, pela graça de Deus, conseguimos a santidade, só terá a sua consumação na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (Act. 3,21) e, juntamente com o género humano, também o universo inteiro, que está intimamente unido ao homem e por ele atinge o seu fim, será perfeitamente instaurado em Cristo (cfr. Ef. 1,10; Col. 1,20; 2 Ped. 3, 10-13). Cristo, ao ser exaltado na terra, atraiu a Si todas as coisas (cfr. Jo. 12,32 gr.); ressuscitando de entre os mortos (cfr. Rom. 6, 9), enviou sobre os discípulos o Seu Espírito vivificador e por Ele constituiu o Seu corpo, que é a Igreja, como sacramento universal de salvação; sentado à direita do Pai, actua continuamente no mundo para conduzir os homens à Igreja e, por ela, uni-los mais estreitamente a Si e, alimentando-os com o Seu próprio corpo e sangue, torná-los participantes da Sua vida gloriosa. A restauração prometida que esperamos, já começou em Cristo, é continuada pelo envio do Espírito Santo e, por Ele, prossegue na Igreja, na qual, pela fé, somos instruídos também sobre o sentido da nossa vida temporal, enquanto levamos a bom termo, com a esperança dos bens futuros, a tarefa que o Pai nos confiou no mundo e procuramos a nossa salvação (cfr. Fil. 2,12). Já chegou, pois, até nós o fim dos tempos (cfr. 1 Cor. 10,11), e a renovação do mundo está irrevogavelmente decretada e, de certo modo, já antecipada neste mundo: com efeito, a Igreja está já na terra ornada de verdadeira, embora imperfeita, santidade. No entanto, enquanto não houver novos céus e nova terra, nos quais habite a justiça (cfr. 2 Ped. 3,13), a Igreja peregrina, nos seus sacramentos e instituições, que pertencem à presente era, traz a figura passageira deste mundo e vive no meio das criaturas que gemem e sofrem as dores de parto até ao presente, esperando a manifestação dos filhos de Deus (cfr. Rom. 8, 19-22). Unidos a Cristo na Igreja e marcados com o selo do Espírito Santo, «que é o penhor da nossa herança» (Ef. 1,14), somos verdadeiramente chamados filhos de Deus e somos de facto (cfr. 1 Jo. 3,1), mas não nos manifestámos ainda com Cristo na glória (cfr. Col. 3,4), na qual seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal qual Ele é (cfr. 1 Jo. 3,2). «Enquanto habitamos neste corpo, vivemos no exílio, longe do Senhor» (2 Cor. 5,6), e tendo as primícias do Espírito, gememos dentro de nós (cfr. Rom. 8,23) e desejamos estar com Cristo (cfr. Fil. 1,23). O mesmo amor nos impele a vivermos cada vez mais para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (cfr. 2 Cor. 5,15). Esforçamo-nos, por isso, em tudo por agradar ao Senhor (cfr. 2 Cor. 5,9) e revestimo-nos da armadura de Deus, para podermos resistir às ciladas do demónio e opor-lhe resistência no dia mau (cfr. Ef. 6, 11-13). Como não sabemos o dia nem a hora, é necessário, segundo a advertência do Senhor, que vigiemos constantemente para que, terminado o único percurso da nossa vida terrena (cfr. Hebr. 9,27), mereçamos entrar com Ele na festa nupcial e ser contados no número dos eleitos (cfr. Mt. 25, 31-46), e não nos mandem, como servos maus e preguiçosos (cfr. Mt. 25, 26), para o fogo eterno (cfr. Mt. 25,41), para as trevas exteriores, onde «haverá choro e ranger de dentes» (Mt. 22,13 e 25,30). Com efeito, antes de reinarmos com Cristo na glória, todos compareceremos «perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba a retribuição do que fez durante a vida mortal, o bem ou o mal» (2 Cor. 5,10); e no fim do mundo «os que praticaram o bem sairão para a ressurreição da vida, e os que praticaram o mal para a ressurreição da condenação» (Jo. 5,29; cfr. Mt. 25, 46). Considerando, pois, que «os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura que há-de revelar-se em nós» (Rom. 8,18; cfr. 2 Tim. 2, 11-12), firmes na fé, aguardamos «a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo» (Tit. 2,13), «que transfigurará o nosso mísero corpo, conformando-o ao Seu corpo glorioso» (Fil. 3,21), e que virá «para ser glorificado nos Seus santos e admirado em todos os que tiverem acreditado» (2 Tess. 1,10).
Até que o Senhor venha no Seu esplendor, acompanhado de todos os Seus anjos (cfr. Mt. 25,31) e, destruída a morte, Lhe forem submetidas todas as coisas (cfr. 1 Cor. 15, 26-27), alguns dos Seus discípulos peregrinam na terra, outros, já falecidos, estão a purificar-se, outros, finalmente, são glorificados, contemplando «claramente Deus trino e uno, tal qual Ele é»; todos, porém, embora em grau e modo diversos, comunicamos na mesma caridade de Deus e do próximo e cantamos ao nosso Deus o mesmo hino de glória. Pois todos os que são de Cristo e possuem o Seu Espírito formam uma só Igreja e estão mutuamente unidos n'Ele (cfr. Ef. 4,16). A união dos que caminham ainda com os irmãos que morreram na paz de Cristo não é de modo algum interrompida; antes, segundo a constante fé da Igreja, é fortalecida pela comunicação de bens espirituais. Por causa de estarem mais intimamente unidos a Cristo, os que habitam nos céus consolidam mais firmemente na santidade toda a Igreja, enobrecem o culto que ela presta a Deus na terra e, de múltiplos modos, contribuem para a sua mais ampla edificação (cfr. 1 Cor. 12, 12-27). Admitidos na pátria e presentes ao Senhor (cfr. 2 Cor. 5,8), por Ele, com Ele e n'Ele, não cessam de interceder em nosso favor junto do Pai, apresentando os méritos que na terra alcançaram por meio de Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens (cfr. 1 Tim. 2,5), servindo o Senhor em todas as coisas e completando na própria carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do Seu corpo que é a Igreja (cfr. Col. 1,24). A sua fraternal solicitude é, pois, de grande auxílio para a nossa fraqueza.
A Igreja dos que caminham na terra, reconhecendo perfeitamente esta comunhão de todo o Corpo místico de Jesus Cristo, cultivou com muita piedade a memória dos defuntos, desde os primeiros tempos do cristianismo, oferecendo também sufrágios por eles, pois «santo e salutar é o pensamento de orar pelos defuntos, para que sejam perdoados dos seus pecados» (2 Mac. 12,46). A Igreja sempre acreditou que os Apóstolos e mártires de Cristo, que haviam dado com o derramamento do próprio sangue o supremo testemunho da fé e da caridade, estão mais estreitamente unidos connosco em Cristo; venerou-os juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria e os santos anjos, com particular afecto, e piedosamente implorou o auxílio da sua intercessão. A estes outros se juntaram, depois, que haviam imitado mais de perto a virgindade e a pobreza de Cristo, e, finalmente, outros que o exercício heróico das virtudes cristãs e os carismas divinos recomendavam à piedosa devoção e imitação dos fiéis. Ao considerarmos a vida dos que seguiram fielmente a Cristo, encontramos um novo motivo para buscar a cidade futura (cfr. Hebr. 13,14 e 11,10) e, ao mesmo tempo, aprendemos o caminho mais seguro pelo qual, entre as vicissitudes do mundo e segundo o estado e condição de cada um, poderemos alcançar a perfeita união com Cristo, ou a santidade. Na vida daqueles que, sendo embora participantes da nossa natureza humana, se transformaram na imagem de Cristo (cfr. 2 Cor. 3,18), mais perfeitamente Deus manifesta aos homens a Sua presença e o Seu rosto. Neles, é Ele mesmo quem nos fala e nos mostra o sinal do Seu reino, para o qual, tão grande nuvem de testemunhas sobre nós (cfr. Hebr. 12,1) e tão grande afirmação da verdade do Evangelho, somos poderosamente atraídos. Não é apenas por causa do exemplo que nós veneramos a memória dos santos; fazemo-lo ainda mais para que a união de toda a Igreja no Espírito se consolide pelo exercício da caridade fraterna (cfr. Ef. 4, 1-6). Porque assim como a comunhão entre os cristãos que caminham na terra nos aproxima de Cristo, assim a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem derivam, como de fonte e cabeça, toda a graça e a vida do Povo de Deus. Convém, por conseguinte, que estimemos com o maior afecto estes amigos e co-herdeiros de Jesus Cristo, que são também nossos irmãos e insignes benfeitores; que por eles demos a Deus as devidas graças, «que os invoquemos humildemente e que, para impetrar de Deus benefícios por meio do Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, que é o nosso único Redentor e Salvador», recorramos às suas orações, ao seu auxílio e protecção. Com efeito, todo o genuíno testemunho de amor que damos aos santos, tende por sua natureza e culmina em Cristo, que é a «coroa de todos os santos», e, por Ele, em Deus, que é admirável nos Seus santos e neles Se glorifica. A mais genuína expressão da nossa união com a Igreja celeste realiza-se quando, sobretudo na sagrada Liturgia, na qual a força do Espírito Santo actua sobre nós através dos sinais sacramentais, celebramos, em comunhão de júbilo, o louvor da divina Majestade, e todos nós, de qualquer tribo, língua, povo e nação, remidos pelo sangue de Cristo (cfr. Apoc. 5,9) e reunidos numa só Igreja, glorificamos a Deus uno e trino com o mesmo cântico de louvor. É, pois, ao celebrarmos o sacrifício eucarístico que nos unimos mais estreitamente ao culto da Igreja celeste, numa comunhão em que veneramos a memória sobretudo da gloriosa sempre Virgem Maria, do bem-aventurado José e dos bem-aventurados Apóstolos e mártires e de todos os santos.
Este sagrado Concílio aceita com grande piedade a venerável fé dos nossos antepassados sobre a comunhão vital com os irmãos que se encontram na glória celeste ou que ainda se estão a purificar após a morte, e de novo propõe os decretos dos sagrados Concílios de Niceia II, de Florença e de Trento. Ao mesmo tempo, no seu zelo pastoral, exorta a todos quantos a tal estejam obrigados, que se porventura se infiltraram aqui e ali certos abusos, excessos ou defeitos, procurem suprimi-los ou corrigi-los e restabelecer tudo para maior louvor de Cristo e de Deus. Ensinem, pois, aos fiéis que o autêntico culto dos santos não consiste tanto na multiplicação de actos exteriores, mas na intensidade do nosso amor prático, pelo qual procuramos, para maior bem nosso e da Igreja, o exemplo da sua conduta, a participação na sua comunhão e o auxílio da sua intercessão. Por outro lado, façam ver aos fiéis que a nossa relação com os santos do céu, se é que a compreendemos na plena luz da fé, nada tira ao culto de adoração prestado a Deus Pai, pelo Filho, no Espírito Santo; antes, pelo contrário, o enriquece magnificamente.