Capítulo 12
Eucaristia e escatologia
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Se é certo que os sacramentos são uma realidade que pertence à Igreja peregrina no tempo( 99) rumo à plena manifestação da vitória de Cristo ressuscitado, é igualmente verdade que, sobretudo na liturgia eucarística, nos é dado saborear antecipadamente a consumação escatológica para a qual todo o homem e a criação inteira estão a caminho ( Rm 8, 19s). O homem é criado para a felicidade verdadeira e eterna, que só o amor de Deus pode dar; mas a nossa liberdade ferida extraviar-se-ia se não lhe fosse possível experimentar, já desde agora, algo da consumação futura. Aliás, para poder caminhar na direcção justa, o homem necessita de estar orientado para a meta final; esta, na realidade, é o próprio Cristo Senhor, vencedor do pecado e da morte, que Se torna presente para nós de maneira especial na celebração eucarística. Deste modo, embora sejamos ainda « estrangeiros e peregrinos » ( 1 Pd 2, 11) neste mundo, pela fé participamos já da plenitude da vida ressuscitada. O banquete eucarístico, ao revelar a sua dimensão intensamente escatológica, vem em ajuda da nossa liberdade a caminho.
Reflectindo sobre este mistério, podemos dizer que Cristo, com a sua vinda, Se colocou em sintonia com a expectativa presente no povo de Israel, na humanidade inteira e fundamentalmente na própria criação. Com o dom de Si mesmo, inaugurou objectivamente o tempo escatológico. Cristo veio chamar à unidade o povo de Deus que andava disperso ( Jo 11, 52), manifestando claramente a intenção de congregar a comunidade da aliança para dar cumprimento às promessas feitas por Deus a nossos pais ( Jer 23, 3; 31, 10; Lc 1, 55.70). Com o chamamento dos Doze â número que evoca as doze tribos de Israel â e o mandato que lhes confiou na Última Ceia, antes da sua paixão redentora, de celebrarem o seu memorial, Jesus manifestou que queria transferir, para a comunidade inteira por Ele fundada, a missão de ser, na história, sinal e instrumento da reunificação escatológica que n'Ele teve início. Por isso, em cada celebração eucarística, realiza-se sacramentalmente a unificação escatológica do povo de Deus. Para nós, o banquete eucarístico é uma antecipação real do banquete final, preanunciado pelos profetas ( Is 25, 6-9) e descrito no Novo Testamento como « as núpcias do Cordeiro » ( Ap 19, 7-9) que se hão-de celebrar na comunhão dos santos.(100)
A celebração eucarística, na qual anunciamos a morte do Senhor e proclamamos a sua ressurreição enquanto aguardamos a sua vinda gloriosa, é penhor da glória futura, quando mesmo os nossos corpos serão glorificados. Ao celebrarmos o memorial da nossa salvação, reforça-se em nós a esperança da ressurreição da carne juntamente com a possibilidade de encontrarmos de novo, face a face, aqueles que nos precederam com o sinal da fé. Nesta linha, queria, juntamente com os padres sinodais, lembrar a todos os fiéis a importância da oração de sufrágio, particularmente a celebração de Missas, pelos defuntos para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus.(101) Sempre que descobrimos de novo a dimensão escatológica presente na Eucaristia, celebrada e adorada, somos apoiados no nosso caminho e confortados na esperança da glória ( Rm 5, 2; Tt 2, 13).
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