Capítulo 8
III. OLHANDO PARA O FUTURO
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As mudanças em curso na sociedade e a diminuição do número das vocações fazem-se sentir sobre a vida consagrada, em algumas regiões do mundo. As obras apostólicas de muitos Institutos e a sua presença mesma em certas Igrejas locais encontram-se em perigo. Como sucedeu já outras vezes na história, há até Institutos que correm o risco de desaparecer. A Igreja universal sente-se sumamente grata pela grande contribuição oferecida por eles para a sua edificação, com o testemunho e o serviço ( 158 ). A aflição actual não anula os seus méritos nem os frutos amadurecidos mercê das suas canseiras. Para outros Institutos, coloca-se mais o problema da reorganização das obras. Esta tarefa, não fácil e não raro dolorosa, exige estudo e discernimento, à luz de alguns critérios. Importa, por exemplo, salvaguardar o sentido do próprio carisma, promover a vida fraterna, estar atentos às necessidades da Igreja tanto universal como particular, ocupar-se daquilo que o mundo transcura, responder generosamente e com audácia â embora com intervenções forçosamente exíguas â às novas pobrezas, sobretudo nos lugares mais abandonados ( 159 ). À s várias dificuldades, nascidas da diminuição de pessoal e de iniciativas, não devem de modo algum fazer perder a confiança na força evangélica da vida consagrada, que permanecerá sempre actual e operante na Igreja. Se os Institutos em si mesmos não têm a prerrogativa da perenidade, a vida consagrada continuará a alimentar, nos fiéis, a resposta de amor para com Deus e para com os irmãos. Por isso, é necessário distinguir a existência histórica de determinado Instituto ou de uma forma de vida consagrada, da missão eclesial da vida consagrada enquanto tal. A primeira pode mudar com a alteração das situações, a segunda é destinada a não definhar. Isto é verdade tanto para a vida consagrada de tipo contemplativo, como para a devotada às obras de apostolado. No seu conjunto, sob a acção renovadora do Espírito, está destinada a continuar como luminoso testemunho da unidade indissolúvel entre o amor de Deus e o amor do próximo, como memória viva da fecundidade, mesmo humana e social, do amor de Deus. Por isso, as novas situações de penúria hão-de ser enfrentadas com a serenidade de quem sabe que a cada um é pedido não tanto o sucesso, como sobretudo o compromisso da fidelidade. O que se deve absolutamente evitar é a verdadeira derrota da vida consagrada, que não está no declínio numérico, mas no desfalecimento da adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão. Ao contrário, perseverando fielmente nela, confessa-se, com grande eficácia mesmo perante o mundo, a firme confiança no Senhor da história, em cujas mãos estão os tempos e os destinos das pessoas, das instituições, dos povos, e, portanto, também as realizações históricas dos seus dons. As dolorosas situações de crise impelem as pessoas consagradas a proclamarem, com fortaleza, a sua fé na morte e ressurreição de Cristo, para se tornarem sinal visível da passagem da morte à vida.
A missão da vida consagrada e a vitalidade dos Institutos dependem, sem dúvida, do empenho de fidelidade com que os consagrados responderem à sua vocação, mas têm futuro na medida em que outros homens e mulheres generosamente acolherem o chamamento do Senhor. O problema das vocações é um verdadeiro desafio que directamente interpela os Institutos, mas tem a ver com toda a Igreja. Gastam-se grandes energias espirituais e materiais no campo da pastoral vocacional, mas nem sempre os resultados correspondem às expectativas e esforços. Sucede que, enquanto florescem as vocações à vida consagrada nas jovens Igrejas e nas que sofreram perseguição da parte de regimes totalitários, escasseiam nos países tradicionalmente ricos de vocações, mesmo missionárias. Esta situação de dificuldade põe à prova as pessoas consagradas que às vezes se interrogam: perdemos porventura a capacidade de atrair novas vocações? É necessário ter confiança no Senhor Jesus, que continua a chamar para O seguir, e abandonar-se ao Espírito Santo, autor e inspirador dos carismas da vida consagrada. Deste modo, enquanto nos alegramos pela acção do Espírito Santo, que rejuvenesce a Esposa de Cristo, fazendo florir a vida consagrada em muitas nações, devemos elevar insistentemente súplicas ao Senhor da messe para que mande operários para a sua Igreja, a fim de enfrentar as urgências da nova evangelização (cf. Mt 9,37-38). Além de promover a oração pelas vocações, é urgente empenhar-se, através de um anúncio explícito e uma catequese adequada, por favorecer nos chamados à vida consagrada aquela resposta livre, pronta e generosa, que torna operante a graça da vocação. O convite de Jesus: « Vinde ver » ( Jo 1,39) permanece, ainda hoje, a regra de ouro da pastoral vocacional. Esta visa apresentar, seguindo o exemplo dos fundadores e fundadoras, o fascínio da pessoa do Senhor Jesus e a beleza do dom total de si à causa do Evangelho. Portanto, a tarefa primária de todos os consagrados e consagradas é propor corajosamente, pela palavra e pelo exemplo, o ideal do seguimento de Cristo, amparando depois a resposta aos impulsos do Espírito no coração dos chamados. Ao entusiasmo do primeiro encontro com Cristo, deverá seguir-se, obviamente, o paciente esforço daquela correspondência diária que faz da vocação uma história de amizade com o Senhor. Para tal objectivo, a pastoral vocacional sirva-se de meios adequados, como a direcção espiritual, para alimentar aquela resposta de amor pessoal ao Senhor, que é condição essencial para se tornar discípulos e apóstolos do seu Reino. Entretanto, se a pujança vocacional que se manifesta em várias partes do mundo justifica optimismo e esperança, a escassez noutras regiões não deve induzir ao desânimo nem à tentação de recrutamentos fáceis e imponderados. Importa que a tarefa de promover as vocações seja cumprida de modo tal que se manifeste cada vez mais como um empenho unânime de toda a Igreja ( 160 ). Ora isto exige a activa colaboração de pastores, religiosos, famílias e educadores, como convém a um serviço que é parte integrante da pastoral de conjunto de cada Igreja particular. Exista, portanto, em cada diocese este serviço comum, que coordene e multiplique as forças, sem contudo prejudicar â mas antes favoreça â a actividade vocacional de cada Instituto ( 161 ). Esta colaboração activa de todo o Povo de Deus, sustentada pela Providência, não poderá deixar de apressar a abundância dos dons divinos. A solidariedade cristã venha generosamente ao encontro das necessidades da formação vocacional, nos países economicamente mais pobres. A promoção das vocações nestas nações seja efectuada pelos vários Institutos em plena harmonia com as Igrejas particulares, na base de uma activa e prolongada inserção na sua pastoral ( 162 ). O modo mais autêntico para secundar a acção do Espírito há-de ser o de investir generosamente as melhores energias na actividade vocacional, especialmente por uma adequada dedicação à pastoral juvenil.
A Assembleia sinodal prestou particular atenção à formação de quem deseja consagrar-se ao Senhor ( 163 ), reconhecendo a sua importância decisiva. Objectivo central do caminho de formação é a preparação da pessoa para a consagração total de si mesma a Deus no seguimento de Cristo, ao serviço da missão. Responder « sim » ao chamamento de Deus, assumindo pessoalmente o dinamismo do crescimento vocacional, é responsabilidade inalienável de cada chamado, que deve abrir o espaço da própria vida à acção do Espírito Santo; é percorrer com generosidade o caminho de formação, acolhendo com fé as mediações que o Senhor e a Igreja lhe oferecem ( 164 ). A formação deverá, pois, atingir em profundidade a própria pessoa, de tal modo que cada uma das suas atitudes ou gestos, tanto nos momentos importantes como nas circunstâncias ordinárias da vida, possa revelar a sua pertença total e feliz a Deus ( 165 ). Uma vez que o fim da vida consagrada consiste na configuração com o Senhor Jesus e com a sua oblação total ( 166 ), para isso sobretudo é que deve apontar a formação. Trata-se de um itinerário de progressiva assimilação dos sentimentos de Cristo para com o Pai. Se esta é a finalidade da vida consagrada, o método que prepara para ela deverá assumir e manifestar a característica da totalidade. Deverá ser formação da pessoa toda, nos vários aspectos da sua individualidade, tanto nos comportamentos como nas intenções. Exactamente porque tende à transformação da pessoa toda ( 167 ), está claro que o dever da formação nunca termina. Importa, de facto, que às pessoas consagradas sejam oferecidas, até ao fim, oportunidades de crescimento na adesão ao carisma e à missão do próprio Instituto. A formação, por ser total, compreenderá todos os campos da vida cristã e da vida consagrada. Assim, há-de estar prevista uma preparação humana, cultural, espiritual e pastoral, colocando todo o cuidado por que seja favorecida a integração harmónica dos diversos aspectos. À formação inicial, entendida como processo evolutivo que passa por cada grau do amadurecimento pessoal â desde o psicológico e espiritual até ao teológico e pastoral â, deve-se reservar um período de tempo suficientemente amplo. No caso das vocações para o presbiterado, acaba por coincidir e harmonizar-se com um programa específico de estudos que faz parte de um percurso formativo bem mais amplo.
Deus Pai, pelo dom contínuo de Cristo e do Espírito, é o formador por excelência de quem a Ele se consagra. Mas nesta obra, Ele serve-Se da mediação humana, colocando ao lado dos que chama alguns irmãos e irmãs mais velhos. A formação é, portanto, participação na acção do Pai que, através do Espírito, plasma no coração dos jovens e das jovens os sentimentos do Filho. Assim, os formadores e formadoras devem ser especialistas no caminho da procura de Deus, para serem capazes de acompanhar também outros neste itinerário. Atentos à acção da graça, saberão apontar os obstáculos, mesmo os menos visíveis, mas sobretudo hão-de mostrar a beleza do seguimento do Senhor e o valor do carisma em que isso se concretiza. Às luzes da sabedoria espiritual unirão a iluminação oferecida pelos instrumentos humanos, que possam servir de ajuda tanto no discernimento vocacional, como na formação do homem novo, para que se torne autenticamente livre. Instrumento essencial de formação é o colóquio pessoal, que há-de verificar-se regularmente com uma certa frequência, como tradição de insubstituível e comprovada eficácia. Perante tarefas tão delicadas, resulta verdadeiramente importante a preparação de formadores idóneos, que, no seu serviço, assegurem uma grande sintonia com o caminho de toda a Igreja. Será oportuno criar estruturas adequadas para a preparação dos formadores, se possível em lugares onde seja proporcionado o contacto com a cultura em que há-de ser, depois, exercido o serviço pastoral. Nesta obra de formação, os Institutos que já se encontrem melhor radicados dêem uma mão aos Institutos de fundação mais recente, graças à ajuda de alguns dos seus melhores membros ( 168 ).
Visto que a formação deve ser também comunitária, o seu lugar privilegiado no caso dos Institutos de vida religiosa e das Sociedades de Vida Apostólica é a comunidade. Nesta, tem lugar a iniciação à dificuldade e à alegria de viverem juntos. Aí cada um aprende a viver em fraternidade com aquele que Deus pôs ao seu lado, aceitando as suas características positivas juntamente com as suas diferenças e limitações. De modo particular, aprende a partilhar os dons recebidos para a edificação de todos, visto que « a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum » ( 1 Cor 12,7) ( 169 ). Ao mesmo tempo, a vida comunitária deve mostrar, desde a formação inicial, a dimensão missionária intrínseca à consagração. Por isso nos Institutos de vida consagrada, durante o período da formação inicial, será útil realizar experiências concretas, prudentemente acompanhadas pelo formador ou formadora, para exercitar, no diálogo com a cultura circundante, as atitudes apostólicas, a capacidade de adaptação, o espírito de iniciativa. Se, por um lado, é importante que a pessoa consagrada vá adquirindo progressivamente uma consciência evangelicamente crítica face aos valores e contra-valores tanto da cultura própria como daquela que encontrará no futuro campo de trabalho, por outro, ela deve exercitar-se na difícil arte da unidade de vida, da mútua compenetração da caridade para com Deus e para com os irmãos e irmãs, experimentando que a oração é a alma do apostolado, mas que também o apostolado vivifica e estimula a oração.
Um período explícito de formação, que se estenda até à profissão perpétua, é recomendado também para os religiosos irmãos, tanto dos Institutos femininos como dos masculinos. O mesmo vale substancialmente também para as comunidades claustrais, que terão o cuidado de elaborar um programa adequado, tendo em vista uma autêntica formação para a vida contemplativa e para a sua missão peculiar na Igreja. Os Padres sinodais solicitaram vivamente a todos os Institutos de vida consagrada e Sociedades de Vida Apostólica que elaborassem, quanto antes, uma ratio institutionis, isto é, um projecto de formação inspirado no carisma institucional, no qual se apresente, de forma clara e dinâmica, o caminho a seguir para se assimilar plenamente a espiritualidade do próprio Instituto. A ratio dá resposta a uma verdadeira urgência de hoje: por um lado, indica o modo de transmitir o espírito do Instituto, a fim de ser vivido em toda a sua genuinidade pelas novas gerações, na diversidade das culturas e das situações geográficas, e, por outro, ilustra às pessoas consagradas os meios para viverem o mesmo espírito nas várias fases da existência, avançando para a plena maturidade da fé em Cristo Jesus. Portanto, se é verdade que a renovação da vida consagrada depende principalmente da formação, é igualmente certo que esta, por sua vez, está ligada à capacidade de propor um método rico de sabedoria espiritual e pedagógica, que leve progressivamente a assumir os sentimentos de Cristo Senhor quem aspira a consagrar-se. A formação é um processo vital, através do qual a pessoa se converte ao Verbo de Deus até às profundezas do seu ser e, ao mesmo tempo, aprende a arte de procurar os sinais de Deus nas realidades do mundo. Numa época de crescente marginalização dos valores religiosos da cultura, este caminho de formação é duplamente importante: graças a ele, a pessoa consagrada não só pode continuar a « ver » Deus com os olhos da fé, num mundo que ignora a sua presença, mas consegue também de algum modo tornar « sensível » a presença d'Ele, por meio do testemunho do próprio carisma.
A formação permanente, tanto para os Institutos de vida apostólica como para os de vida contemplativa, constitui uma exigência intrínseca à consagração religiosa. Como se disse, o processo de formação não se reduz à sua fase inicial, visto que a pessoa consagrada, pelas suas limitações humanas, não poderá mais pensar ter completado a gestação daquele homem novo que experimenta dentro de si, em cada circunstância da vida, os mesmos sentimentos de Cristo. A formação inicial deve, portanto, consolidar-se com a formação permanente, criando no sujeito a disponibilidade para se deixar formar em cada dia da sua vida ( 170 ). Por conseguinte, será muito importante que cada Instituto preveja, como parte da ratio institutionis, a definição, o mais possível precisa e sistemática, de um projecto de formação permanente, cujo objectivo primário seja o de acompanhar cada pessoa consagrada com um programa aberto à existência inteira. Ninguém se pode eximir de se aplicar ao próprio crescimento humano e religioso; tal como ninguém pode presumir de si mesmo, gerindo a própria vida com auto-suficiência. Nenhuma fase da vida se pode considerar tão segura e fervorosa que exclua a conveniência de cuidados específicos para garantir a perseverança na fidelidade, tal como não existe idade que chegue ver consumada a maturação da pessoa.
Há uma juventude do espírito que permanece independentemente do tempo: está relacionada com o facto de o indivíduo procurar e encontrar, em cada fase da vida, uma tarefa diversa a cumprir, um modo específico de ser, de servir e de amar ( 171 ). Na vida consagrada, os primeiros anos da inserção plena na actividade apostólica representam uma fase crítica por natureza, porque marcada pela passagem de uma vida guiada a uma situação de plena responsabilidade operante. Será importante que as pessoas recém-consagradas sejam sustentadas e acompanhadas por um irmão ou uma irmã que as ajude a viver plenamente a juventude do seu amor e do seu entusiasmo por Cristo. A fase sucessiva pode apresentar o risco da habituação e a consequente tentação da desilusão pela escassez dos resultados. Neste caso, é necessário ajudar as pessoas consagradas de meia idade a reverem, à luz do Evangelho e da inspiração carismática, a sua opção originária sem confundir a totalidade da dedicação com a totalidade do resultado. Isto permitirá dar renovado impulso e novas motivações à própria escolha. É a estação da busca do essencial. A fase da idade madura, contemporânea ao crescimento pessoal, pode comportar o perigo de um certo individualismo, acompanhado quer pelo temor de já não estar adaptado aos tempos, quer por fenómenos de endurecimento, insensibilidade e relaxamento. Aqui a formação permanente tem a finalidade de ajudar não só a recuperar um grau mais alto de vida espiritual e apostólica, mas ainda a descobrir a peculiaridade desta fase da existência. De facto, uma vez purificados nela alguns aspectos da personalidade, a oferta de si mesmo sobe a Deus com maior pureza e generosidade, refluindo depois sobre os irmãos e irmãs mais serena e discreta, mas também mais transparente e rica de graças. É o dom e a experiência da paternidade e maternidade espiritual. A idade avançada coloca novos problemas, que hão-de ser previamente enfrentados com um ponderado programa de apoio espiritual. O afastamento progressivo da actividade e, em alguns casos, a doença e a forçada inactividade constituem uma experiência que se pode tornar altamente formativa. Momento este muitas vezes doloroso, oferece, no entanto, à pessoa consagrada idosa a oportunidade de se deixar plasmar pela experiência pascal ( 172 ), configurando-se com Cristo crucificado que cumpre em tudo a vontade do Pai e Se abandona nas suas mãos até Lhe entregar o espírito. Esta configuração é um modo novo de viver a consagração, que não está ligada à eficiência de uma tarefa de governo ou de um trabalho apostólico. Quando, depois, chega o momento de unir-se à hora suprema da Paixão do Senhor, a pessoa consagrada sabe que o Pai está finalmente levando a cumprimento nela aquele misterioso processo de formação, há tempos iniciado. A morte será, então, esperada e preparada como o acto supremo de amor e de entrega de si mesma. É necessário acrescentar que, independentemente das várias fases da vida, cada idade pode conhecer situações críticas devido à intervenção de factores externos â mudança de lugar ou de serviço, dificuldades no trabalho ou insucesso apostólico, incompreensão ou marginalização, etc. â ou devido a factores mais estritamente pessoais â doença física ou psíquica, aridez espiritual, lutos, problemas de relacionamento interpessoal, fortes tentações, crises de fé ou de identidade, sensação de inutilidade, e outros semelhantes â. Quando a fidelidade se torna mais difícil, é preciso oferecer à pessoa o apoio de uma maior confiança e de um amor mais intenso, a nível pessoal e comunitário. Nessas ocasiões sobretudo, é necessária a solidariedade afectuosa do Superior; grande conforto virá ainda da ajuda qualificada de um irmão ou de uma irmã, cuja presença carinhosa e disponível poderá levar a redescobrir o sentido da aliança que Deus tomou a iniciativa de estabelecer e não a entende desdizer. A pessoa provada chegará, deste modo, a acolher a purificação e o despojamento como actos essenciais de seguimento de Cristo crucificado. A prova mesma será vista como instrumento providencial de formação nas mãos do Pai, como luta não apenas psicológica, conduzida pelo sujeito relativamente a si próprio e às suas fraquezas, mas também religiosa, marcada cada dia pela presença de Deus e pelo poder da Cruz!
Se o sujeito da formação é a pessoa nas diversas fases da sua vida, o termo último da formação é a totalidade do ser humano, chamado a procurar e a amar a Deus, « com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças » (cf. Dt 6,5), e ao próximo como a si mesmo (cf. Lv 19,18; Mt 22,37-39). O amor a Deus e aos irmãos é um dinamismo poderoso, que pode inspirar constantemente o caminho de crescimento e de fidelidade. A vida no Espírito tem obviamente o primado. Nela, a pessoa consagrada readquire a própria identidade e uma serenidade profunda, cresce na atenção aos desafios quotidianos da Palavra de Deus, e deixa-se guiar pela inspiração original do próprio Instituto. Sob a acção do Espírito, são tenazmente defendidos os tempos de oração, de silêncio, de solidão, e implora-se do Alto, com insistência, o dom da sabedoria para as canseiras de cada dia (cf. Sab 9,10). A dimensão humana e fraterna requer o conhecimento de si mesmo e dos próprios limites, para daí tirar o devido estímulo e apoio no caminho para a plena libertação. Particularmente importantes, no contexto moderno, são a liberdade interior da pessoa consagrada, a maturidade afectiva, a capacidade de comunicar com todos, especialmente na própria comunidade, a serenidade do espírito e a sensibilidade por quem sofre, o amor à verdade, uma coerência linear entre as palavras e as obras. A dimensão apostólica abre a mente e o coração da pessoa consagrada, e predispõe-na para um contínuo esforço no serviço, como sinal do amor de Cristo que a impele (cf. 2 Cor 5,14). Isto significará, na prática, uma actualização de métodos e objectivos das actividades apostólicas, na fidelidade ao espírito e finalidade do fundador ou fundadora e às tradições posteriormente maturadas, com uma atenção constante às alterações verificadas nas condições históricas e culturais, gerais e locais, do ambiente onde se trabalha. A dimensão cultural e profissional, tendo por base uma sólida formação teológica que consinta o discernimento, implica uma actualização permanente e uma atenção particular aos vários campos que cada carisma privilegia. Por isso, é necessário permanecer mentalmente o mais possível abertos e dóceis, para que o serviço seja concebido e prestado segundo as exigências do respectivo tempo, valendo-se dos instrumentos fornecidos pelo progresso cultural. Na dimensão do carisma, por último, encontram-se recolhidas todas as outras exigências, como numa síntese que exige um aprofundamento contínuo da própria consagração especial em suas várias componentes, não só na apostólica, mas também nas componentes ascética e mística. Isto comporta para cada um dos membros um estudo assíduo do espírito do Instituto a que pertence, da sua história e missão, para melhorar a sua assimilação pessoal e comunitária ( 173 ).
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