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Abade Teodoro De Ferma

1

O Abade Teodoro de Ferma possuía três livros bons. Foi ter com o Abade Macário e referiu-lhe: “Tenho três livros bons, dos quais tiro proveito; também os irmãos os usam com edificação sua. Dize-me, pois, o que devo faze; guardá-los para o proveito meu e de meus irmãos ou vendê-los, dando o dinheiro aos pobres?” Respondeu o ancião: Em verdade, boas são as obras; melhor, porém, do que tudo mais é nada possuir”. Ao ouvir tais palavras, aquele se foi, vendeu os livros e deu o preço aos pobres.

2

Um irmão que residia nas Célias perturbava-se na sua solidão. Foi, pois, procurar o Abade Teodoro de Ferma, e referiu-lhe isto. O ancião respondeu: “Vai, humilha atua mente, sê submisso, e permanece com os outros”. O mesmo voltou depois a procurar o ancião e disse-lhe: “Nem com os homens tenho sossego”. Perguntou este: “Se nem na solidão nem na convivência com os outros encontras sossego, porque saíste de casa para abraçar a vida monástica? Não foi para suportar as tribulações? Dize-me agora: há quantos anos que trazes o hábito? Respondeu o irmão: “Oito”. Continuou o ancião: “Em verdade, tenho setenta anos de hábito, e ainda não encontrei repouso um só dia; e tu, depois de oito anos, queres ter sossego?” Tendo ouvido isto, o monge, fortalecido, se foi.

3

Certa vez um irmão foi ter com o Abade Teodoro, e passou três dias pedindo-lhe que lhe fizesse ouvir uma palavra. Já, porém, que o Abade não lhe respondeu, partiu entristecido. Perguntou então o discípulo de Teodoro a este: “Por que não lhe disseste uma palavra? Ele se foi triste”. Respondeu o ancião: “De fato, não lhe falei, porque é homem de negócios (1) e quer gloriar-se com palavras de outrem”.

4

Disse também: “Caso tenhas amizade com alguém e a este acontecer que caia em tentação de fornicação, dá-lhe a mão, se podes, e levanta-o. Se, porém, cair em heresia e não se deixar persuadir por ti de que se deve converter, remove-o logo de ti, para que, em consequência da demora, não sejas atraído com ele para o fosso.

5

Do Abade Teodoro de Ferma diziam que nestes três pontos se distinguia acima de muitos: pobreza, mortificação, fuga dos homens.

6

Certa vez o Abade Teodoro se achava em agradável companhia com os irmãos. Estando eles à mesa com reverência se serviam dos cálices, em silêncio, porém, sem dizer: “Perdão”. Disse, então, o Abade Teodoro: “Os monges perderam a sua nobreza, o costume de dizer: ‘Perdão’”.

7

Um irmão perguntou ao Abade Teodoro: “Queres, Abade, que deixe de comer pão durante alguns dias?” Respondeu-lhe o ancião: “Farás bem; também eu fiz assim”. Disse então o irmão: “Por conseguinte, vou levar meus grãos para o moinho, a fim de que deles se faça farinha”. Replicou o ancião: “Se vais de novo ao moinho, faze o teu pão; que necessidade há de levares para lá os teus grãos?” (1)

8

Um dos anciãos chegou-se ao Abade Teodoro e disse-lhe: “Eis tal irmão voltou para o mundo”. Respondeu o ancião: “Tu te admiras por isso? Não te admires; antes deves ficar estupefato, se ouvires que alguém conseguiu escapar da goela do inimigo”.

9

Um irmão foi ter com o Abade Teodoro, e pôs-se a falar e interrogar a respeito de coisas que aquele ainda não conhecia por experiência prática. Disse-lhe então o ancião: “Ainda não encontraste a nave, ainda não a carregaste com a tua bagagem, e, antes de navegar, já chegaste a tal cidade! Faze primeiramente a experiência, depois virás falar das coisas que agora abordas”.

10

Certa vez o mesmo foi ter com o Abade João, o eunuco de nascença; e, no decurso do colóquio, disse: “Quando estava na Cétia, as obras da alma eram a nossa obra, enquanto, o trabalho manual, nós o tínhamos como tarefa lateral; agora, porém, tornou-se o trabalho da alma como que obra lateral, e a obra lateral ficou sendo a tarefa” (2).

11

Ora um irmão interrogou=o, dizendo: “Qual é o trabalho da alma que agora temos como obra lateral, e qual é a obra lateral que agora temos como tarefa?” Respondeu o ancião: “Todas as coisas que se fazem por preceito de Deus, são obra da alma, ao passo que, trabalhar e recolher para satisfazer o próprio juízo, nós o devemos considerar obra lateral”. O irmão pediu então: “Explica-me essa proposição”. O ancião continuou: “Eis, ouves dizer que estou doente; por conseguinte, é teu dever visitar-me; dizes, porém, contigo mesmo: ‘Hei de deixar o meu trabalho e partir agora? Antes o terminarei, e depois partirei’. Ora sobrevem-te ainda outro afazer, e facilmente acontecerá que não saias mais. De novo um outro irmão te fala: ‘Ajuda-me aqui, ó irmão’. Dizes, porém, contigo mesmo: ‘Hei de deixar a minha tarefa e ir trabalhar com ele?’ Se não fores, abandonarás o preceito de Deus, que é o trabalho da alma, e farás a obra lateral, que é o trabalho das mãos”.

12

Disse o Abade Teodoro de Ferma: “O homem que se entrega à penitência, não está ligado a algum preceito”.

13

O mesmo disse: “Não há virtude tal como a de não desprezar”.

14

Disse também: “O homem que aprendeu quão suave é a cela, foge do próximo sem o desprezar”.

15

Disse ainda: “Se eu não me subtrair a essas compaixões, elas não me deixarão ser monge” (1).

16

Falou também nestes termos: “Nos tempos atuais muitos escolheram o repouso antes que Deus a eles o tivesse concedido”.

17

Disse mais: “Não durmas em lugar onde há mulher”.

18

Um irmão dirigiu-se ao Abade Teodoro, dizendo: “Quero cumprir os mandamentos”. O ancião falou-lhe, então, do Abade Teonaz, o qual certa vez disse, também ele: “Quero observar o meu pacto com Deus”. E, tendo levado consigo trigo para a padaria, fez alguns pães. De novo solicitaram-no outros mendigos, aos quais deu os cestos com o manto que trajava. Quando regressou à cela, estava cingido apenas do seu cinturão. De novo então repreendeu a si mesmo, dizendo: “Não cumpri o mandamento de Deus”.

19

Em dada ocasião, o Abade José adoeceu e mandou alguém procurar o Abade Teodoro para dizer-lhe: “Vem, a fim de que te veja antes de sair do corpo”. Estava-se, então, em meados da semana. Ora, o Abade Teodoro não foi, mas mandou dizer: “Se permaneceres até sábado, irei visitar-te; se, porém, partires antes, ver-nos-emos naquele mundo”.

20

Um irmão pediu ao Abade Teodoro: “Dize-me uma palavra, pois estou para perecer”. A custa este respondeu: “Eu estou em perigo, e que hei de dizer a ti?”

21

Um irmão foi ter com o Abade Teodoro, levando os seus cordames, para que este o ensinasse a tecer”. O ancião mandou-lhe: “Vai-te, e amanhã de manhã volta aqui”. E, tendo-se levantado na manhã seguinte, o Abade umedeceu-lhe o cordame, fez os demais preparativos e disse-lhe: “Assim e assim deves trabalhar”. A seguir, deixou-o, entrou em sua cela e sentou-se. Chegada a hora devida, fê-lo comer e despediu-o. Na manhã seguinte, o irmão voltou; o ancião, porém, disse-lhe: “Leva teu cordame daqui, e retira-te, pois vieste para me atirar em tentação e solicitude”. E não permitiu mais que ficasse com ele”.

22

O discípulo do Abade Teodoro referiu o seguinte: “Em dada ocasião veio alguém que vendia cebolas, e encheu-me a vasilha”. Disse, pois, o ancião: “Enche uma medida de trigo, e dá-lha”. Ora havia dois montes de trigo, um puro e o outro impuro. Enchi do trigo impuro. Então o ancião me fitou com olhar penetrante e triste; em consequência, caí de medo e quebrei a vasilha. Após isto, prostrei-me a seus pés pedindo perdão. Disse o Abade: “Levanta-te; não tens culpa, mas fui eu que pequei, porque te mandei fazer”. A seguir, entrou no celeiro, encheu o regaço de trigo puro e entregou-lhe com as cebolas.

23

De uma feita, o Abade Teodoro foi haurir água com um irmão. Este, chegando primeiro à cisterna, viu um dragão. O ancião mandou então: “Vai, pisa a cabeça dele”. Com medo, porém, o irmão não foi. O Abade aproximou-se, pois, o animal olhou-o e, como que tomado de vergonha fugiu para o deserto.

24

Alguém perguntou ao Abade Teodoro: “Se de repente se der um desabamento, também tu terás medo, ó Abade?” Respondeu o ancião: “Ainda que o céu se solde com a terra, Teodoro não se atemoriza”. Tinha pedido a Deus que lhe fizesse perder a pusilanimidade. Por isto também é que lhe fizeram tal pergunta.

25

Contava-se dele que, ordenado diácono na Cétia, não queria exercer as funções de diácono, mas fugiu para muitos lugares. Os anciãos, porém, de cada vez, o iam buscar, dizendo-lhe: “Não abandones o teu ofício”. Respondeu-lhes certa vez o Abade Teodoro: “Deixai-me, e pedirei a Deus que me revele se devo preencher o lugar do meu ofício”. E, em oração a Deus, dizia: “Se é Vossa Vontade que eu compareça no lugar do meu ofício, fazei-me saber com certeza”. Foi-lhe então mostrada uma coluna de fogo que se erguia da terra até o céu, e ouviu uma voz que dizia: “Se te podes tornar como esta coluna, vai, exerce as tuas funções”. Teodoro, ao ouvir isto, decidiu que ainda dessa vez não aceitaria. Por conseguinte, quando chegou à igreja, os irmãos inclinaram-se diante dele, e disseram: “Se não queres exercer o teu ofício, ao menos segura o cálice”. Ele, porém, não aquiesceu, dizendo: “Se não me deixardes livre, retirar-me-ei deste lugar”. Diante disto, deixaram-no em paz.

26

Narravam dele que, quando a Cétia foi devastada, foi habitar em Ferma, e, tendo envelhecido, adoeceu. Levavam-lhe, então, alguns alimentos. Todavia, aquilo que o primeiro trazia, ele o dava ao segundo, e assim conforme a ordem, o que recebia do precedente, ele o entregava ao seguinte. Na hora de comer, porém, comia aquilo que lhe levava quem vinha.

27

Contavam do Abade Teodoro que, quando residia na Cétia, se aproximou dele um demônio, que queria entrar em sua cela; ele, porém, o ligou fora da cela. E de novo outro demônio se aproximou para entrar; mas também a este, o amarrou. Chegou-se o terceiro demônio, e, encontrando amarrados os dois outros, perguntou-lhes: “Por que estais aqui fora?” Responderam-lhe: “Há alguém sentado dentro, que não nos deixa entrar”. O terceiro, então, usando de violência tentou entrar. O ancião, porém, amarrou também a este. A seguir, temendo eles as orações do Abade, rogaram-lhe: “Solta-nos”. Ele respondeu: “Ide-vos”. E eles, cobertos de vergonha, retiraram-se.

28

Um dos Padres contou, a respeito do Abade Teodoro de Ferma: “Uma vez, à tarde, fui ter com ele, e encontrei-o revestido de um mando gasto, tendo o peito descoberto e a cogula diante de si. Eis, então, que um certo conde se chegou para vê-lo. Tendo este batido à porta, o ancião foi abrir; encontrou-se com o visitante e sentou-se à porta para lhe falar. Eu tomei, pois, um pedaço de pano e recobri-lhe os ombros; o ancião, porém, estendeu a mão e lançou-o no chão. Quando já se tinha ido o conde, perguntei-lhe: “Abade, por que fizeste isso?” O homem veio para se edificar; teria vindo para ser escandalizado?” Respondeu-me o ancião: “Que me dizes, ó Abade? Será que até agora servimos aos homens? Fizemos o que devia ser feito; de resto, passou. Quem quiser edificar-se, edifique-se; quem quiser escandalizar-se, escandalize-se; eu, porém, como me encontro, assim me apresento”. E deu a seguinte ordem a seu discípulo: “Quando vier alguém para me ver, nunca lhe dias algo do que se costuma dizer entre os homens (1); mas, se eu estiver comendo, dize: ‘Está comendo’; e se estiver dormindo, dize: ‘Está dormindo’.

29

Certa vez três ladrões assaltaram o Abade Teodoro: enquanto dois o seguravam, o terceiro tirava os seus objetos. Quando esta já havia tomado os livros, quis apoderar-se também do manto. Disse-lhes Teodoro: Deixai isso”. Eles, porém, não o queriam deixar. Então, com um movimento de mãos, atirou ao chão os dois que o seguravam, atemorizando assim os três assaltantes. O ancião retomou: “Não vos espanteis; fazei das minhas alfaias quatro partes; levai três, e deixai uma”. Assim fizeram, de movo que ele tomou a sua parte, a saber, o manto com que assistia aos ofícios litúrgicos.