Capítulo 2
GESTOS E PALAVRAS DE AMOR
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O Coração de Cristo, que simboliza o centro pessoal de onde brota o seu amor por nós, é o núcleo vivo do primeiro anúncio. Ali se encontra a origem da nossa fé, a fonte que mantém vivas as convicções cristãs.
O modo como nos ama é algo que Cristo não quis explicar-nos exaustivamente. Mostra-o nos seus gestos. Observando-O, podemos descobrir como trata cada um de nós, mesmo que nos custe perceber isso. Procuremos, pois, onde a nossa fé pode reconhecê-Lo: no Evangelho.
O Evangelho diz que Jesus «veio para os seus» (Jo 1, 11). Os “seus” somos nós, pois não nos trata como algo estranho. Considera-nos como propriedade sua, que guarda com cuidado, com afeto. Trata-nos como seus. Isto não significa que sejamos seus escravos; Ele próprio o nega: «Não vos chamo servos» (Jo 15, 15). O que Ele propõe é a pertença mútua dos amigos. Veio, superou todas as distâncias, tornou-se próximo de nós, como as coisas mais simples e quotidianas da existência. Efetivamente, Ele tem outro nome, que é “Emanuel” e significa “Deus conosco”, Deus próximo à nossa vida, vivendo entre nós. O Filho de Deus encarnou e «esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo» (Fl 2, 7).
Isto se torna evidente quando vemos o modo como age. Está sempre à procura, sempre próximo, sempre aberto ao encontro. Contemplamos isto quando se detém a conversar com a Samaritana, junto do poço onde ela ia buscar água (cf. Jo 4, 5-7). Vemo-lo quando, no meio da noite escura, encontra Nicodemos, que tinha medo de ser visto perto d’Ele (cf. Jo 3, 1-2). Admiramo-lo quando, sem se envergonhar, deixa que uma prostituta lhe lave os pés (cf. Lc 7, 36-50); quando diz, olhos nos olhos, à mulher adúltera: “Não te condeno” (Jo 8, 11); ou quando, perante a indiferença dos discípulos, diz afetuosamente ao cego do caminho: “Que queres que te faça?” (Mc 10, 51). Cristo mostra que Deus é proximidade, compaixão e ternura.
Se curava alguém, preferia aproximar-se: «Jesus estendeu a mão e tocou-o» ( Mt 8, 3); «tocou-lhe na mão» ( Mt 8, 15); «tocou-lhes nos olhos» ( Mt 9, 29). E, como faz uma mãe, curou os doentes até com a própria saliva (cf. Mc 7, 33) para que não O sentissem alheio às suas vidas. Porque «o Senhor conhece a bela ciência das carícias. A ternura de Deus não nos ama com palavras; aproxima-se de nós e, estando perto, dá-nos o seu amor com toda a ternura possível» [27].
Visto que nos custa confiar, porque fomos feridos por tantas falsidades, agressões e desilusões, ele sussurra-nos ao ouvido: «Filho, tem confiança» (Mt 9, 2); «Filha, tem confiança» (Mt 9, 22). Trata-se de vencer o medo e de tomar consciência de que, com Ele, não temos nada a perder. A Pedro, que estava desconfiado, «Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: […] “Porque duvidaste?”» (Mt 14, 31). Não tenhas medo. Deixa-O aproximar-se e sentar-se ao teu lado. Podemos duvidar de muitas pessoas, mas não d’Ele. E não te paralises por causa dos teus pecados.Recorda-te que muitos pecadores «sentaram-se com Ele» (Mt 9, 10) e Jesus não se escandalizou com nenhum deles. Os elitistas da religião queixavam-se e chamavam-Lhe «glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e pecadores» (Mt 11, 19). Quando os fariseus criticavam esta sua proximidade com as pessoas consideradas humildes ou pecadoras, Jesus dizia-lhes: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).
Esse mesmo Jesus espera hoje que lhe dês a possibilidade de iluminar a tua existência, de erguer-te, de encher-te com a sua força. Porque, antes de morrer, disse aos seus discípulos: «Não vos deixarei órfãos; Eu voltarei a vós! Ainda um pouco e o mundo já não me verá; vós é que me vereis» (Jo 14, 18-19). Ele consegue sempre uma maneira para se manifestar na tua vida, para que tu O possas encontrar.
O Evangelho conta-nos que se aproximou dele um homem rico, cheio de ideais, mas sem forças para mudar de vida. Então «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). Consegues imaginar esse instante, o encontro entre os olhos deste homem e o olhar de Jesus? Se te chama, se te convoca para uma missão, primeiro Ele olha para ti, penetra no teu íntimo, percebe e conhece tudo o que há em ti, pousa sobre ti o seu olhar: «Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos [...]. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos» (Mt 4, 18.21).
Muitos textos do Evangelho mostram-nos que Jesus está atento às pessoas, às suas preocupações, ao seu sofrimento. Por exemplo: «Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida» (Mt 9, 36). Quando nos parece que somos ignorados por todos, que não há quem se interesse pelo que nos acontece, que não temos importância para ninguém, Ele permanece atento a cada um de nós. Foi o que fez notar a Natanael, que se encontrava só e ensimesmado: «Antes de Filipe te chamar, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!» (Jo 1, 48).
Precisamente porque está atento, é capaz de reconhecer cada boa intenção que temos, cada pequena boa ação que praticamos. O Evangelho diz que «Viu também uma viúva pobre depositar [no cofre do tesouro do templo] duas moedinhas» (Lc 21, 2) e imediatamente o fez notar aos seus apóstolos. Jesus presta atenção de tal modo que admira as coisas boas que encontra em nós. Quando o centurião Lhe suplicou com toda a confiança, «Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se» (Mt 8, 10). Como é belo saber que, se outros ignoram as nossas boas intenções ou as coisas positivas que fazemos, Jesus não só não as ignora como até as admira.
Enquanto ser humano, tinha aprendido isto de Maria, sua mãe. Ela, que tudo contemplava com cuidado e «guardava tudo no seu coração» (Lc 2, 19.51), ensinou-O desde muito cedo, na companhia de São José, a prestar atenção.
Embora nas Escrituras tenhamos a sua Palavra sempre viva e atual, por vezes Jesus fala interiormente e convoca-nos para nos conduzir ao melhor lugar. Esse lugar melhor é o seu próprio Coração. Ele chama-nos para nos introduzir no lugar onde podemos recuperar a força e a paz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Por isso, pede aos seus discípulos: «Permanecei em mim» (Jo 15, 4).
As palavras que Jesus pronunciou indicavam que a sua santidade não elimina os sentimentos. Por vezes, mostravam um amor apaixonado, que sofre por nós, se comove, se lamenta e chega, até mesmo, às lágrimas. É evidente que Ele não era indiferente às preocupações e angústias comuns das pessoas, como o cansaço ou a fome: «Tenho compaixão desta multidão [...] Não têm nada para comer [...] desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe» (Mc 8, 2-3).
O Evangelho não esconde os sentimentos de Jesus em relação a Jerusalém, a cidade amada: «Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela» (Lc 19, 41) e exprimiu o seu maior desejo: «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz!» (Lc 19, 42). Os evangelistas, embora por vezes O mostrem poderoso ou glorioso, não deixam de exprimir os seus sentimentos diante da morte e da dor dos amigos. Antes de contar que, junto do túmulo de Lázaro, «Jesus começou a chorar» (Jo 11, 35), o Evangelho detém-se a dizer que «Jesus era muito amigo de Marta, da sua irmã e de Lázaro» (Jo 11, 5) e que, ao ver Maria e os seus companheiros a chorar, «suspirou profundamente e comoveu-se» (Jo 11, 33).A narração não deixa dúvidas de que se trata de um pranto sincero, que nasce de uma perturbação interior. Por fim, a angústia de Jesus perante a sua própria morte violenta, às mãos daqueles que tanto amava, também não ficou escondida: «começou a sentir pavor e a angustiar-se» (Mc 14, 33), a ponto de dizer: «a minha alma está numa tristeza mortal» (Mc 14, 34). Esta perturbação interior exprime-se com toda a sua força no grito do Crucificado: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34).
Tudo isto, à primeira vista, pode parecer um mero romanticismo religioso. No entanto, é o que há de mais sério e mais decisivo. Encontra a sua expressão máxima em Cristo pregado numa cruz. Essa é a palavra de amor mais eloquente. Não se trata de algo superficial, não é puro sentimento, não é uma alienação espiritual. É amor. Por isso, quando São Paulo procurava as palavras certas para explicar a sua relação com Cristo, disse:«amou-me e a Si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 20). Esta era a sua maior convicção: saber-se amado. A entrega de Cristo na cruz subjugava-o, mas só fazia sentido porque havia algo ainda maior do que essa entrega: “Amou-me”. Quando muitas pessoas procuravam em várias propostas religiosas salvação, bem-estar ou segurança, Paulo, tocado pelo Espírito, soube olhar além e maravilhar-se com o que há de maior e mais fundamental: “Amou-me”.
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