Capítulo 3
ESTE É O CORAÇÃO QUE TANTO AMOU
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A devoção ao Coração de Cristo não é o culto a um órgão separado da Pessoa de Jesus. O que contemplamos e adoramos é a Jesus Cristo por inteiro, o Filho de Deus feito homem, representado numa imagem sua em que se destaca o seu coração. Neste caso, o coração de carne é entendido como imagem ou sinal privilegiado do centro mais íntimo do Filho incarnado e do seu amor ao mesmo tempo divino e humano, porque, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, é «o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade» [28].
É indispensável sublinhar que nos relacionamos com a Pessoa de Cristo, através da amizade e da adoração, atraídos pelo amor representado na imagem do seu Coração. Veneramos essa imagem que O representa, mas a adoração dirige-se apenas a Cristo vivo, na sua divindade e em toda a sua humanidade, para nos deixarmos abraçar pelo seu amor humano e divino.
Seja qual for a imagem utilizada, é certo que o objeto de adoração é o Coração vivo de Cristo – e nunca uma imagem –, porque faz parte do seu Corpo santíssimo e ressuscitado, inseparável do Filho de Deus que o assumiu para sempre. Ele é adorado enquanto «o coração da pessoa do Verbo a quem está unido de modo inseparável» [29]. Não o adoramos isoladamente, mas na medida em que com esse Coração é o próprio Filho incarnado que vive, ama e recebe o nosso amor. Por isso, qualquer ato de amor ou de adoração ao seu Coração é «na realidade e propriamente tributado ao Cristo mesmo» [30], porque se refere espontaneamente a Ele e é «o símbolo e a imagem sensível da caridade infinita de Jesus Cristo» [31].
Por isso, ninguém deve pensar que esta devoção nos possa separar ou distanciar de Jesus Cristo e do seu amor. De modo espontâneo e direto, ela dirige-nos a Ele e só a Ele, que nos chama a uma amizade valiosa, feita de diálogo, afeto, confiança e adoração. Este Cristo com o seu coração trespassado e ardente é o mesmo Cristo que por amor nasceu em Belém, percorreu a Galileia curando, acariciando, derramando misericórdia, e amou-nos até ao fim, estendendo os braços na cruz. Por fim, é o mesmo que ressuscitou e vive gloriosamente no meio de nós.
Convém notar que a imagem de Cristo com o seu coração, ainda que de maneira nenhuma possa ser objeto de adoração, não é uma imagem qualquer, entre muitas outras que poderíamos escolher. Não é algo inventado de modo abstrato ou desenhado por um artista, «não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira» [32].
Há uma experiência humana universal que torna esta imagem única. Pois não há dúvida que, ao longo da história e em várias partes do mundo, o coração se tenha tornado um símbolo da intimidade mais pessoal e também do afeto, emoções e capacidade de amar. Para além de qualquer explicação científica, uma mão colocada sobre o coração de um amigo exprime um afeto especial; quando uma pessoa se apaixona e está perto da pessoa amada, o batimento cardíaco acelera; quando alguém sofre um abandono ou uma desilusão por parte da pessoa amada, sente uma espécie de forte opressão no coração.Por outro lado, para exprimir que algo é sincero, que vem realmente do centro da pessoa, afirma-se: “Digo-o do fundo do coração”. A linguagem poética não pode ignorar a força destas experiências. Por isso, é inevitável que, ao longo da história, o coração tenha alcançado uma força simbólica única, que não é meramente convencional.
É, pois, compreensível que a Igreja tenha escolhido a imagem do coração para representar o amor humano e divino de Jesus Cristo e o núcleo mais íntimo da sua Pessoa. Mas, se a imagem de um coração com chamas de fogo pode ser um símbolo eloquente que nos recorda o amor de Jesus Cristo, é conveniente que esse coração faça parte de uma imagem de Jesus Cristo.Isto torna ainda mais significativo o seu apelo a uma relação pessoal de encontro e de diálogo [33]. Essa imagem venerada de Cristo, onde se destaca o seu coração amoroso, tem ao mesmo tempo um olhar que apela ao encontro, ao diálogo e à confiança; tem mãos fortes capazes de nos sustentar; tem uma boca que nos fala de uma forma única e personalíssima.
O coração tem o valor de ser percebido não como um órgão separado, mas como um centro íntimo que gera unidade e, ao mesmo tempo, como expressão da totalidade da pessoa, o que não acontece com outros órgãos do corpo humano. Se é o centro íntimo da totalidade da pessoa e, portanto, uma parte que representa o todo, poderíamos facilmente desnaturalizá-lo caso o contemplássemos separado da figura do Senhor. A imagem do coração deve remeter-nos para a totalidade de Jesus Cristo no seu centro unificador e, a partir desse, simultaneamente deve levar-nos a contemplar Cristo em toda a beleza e riqueza da sua humanidade e da sua divindade.
Isto vai além da atração que podem gerar as várias imagens do Coração de Cristo, pois não é que, diante das imagens de Cristo, «se deva pedir alguma coisa a essas imagens ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos», mas que «por meio das imagens que beijamos e diante das quais nos descobrimos e prostramos, adoramos a Cristo» [34].
Além disso, algumas destas imagens podem parecer-nos pouco atrativas e não nos mover muito ao amor e à oração. Isso é secundário, pois a imagem não é mais do que uma figura motivadora, e, como diriam os orientais, não devemos fixar-nos no dedo que aponta para a lua. Enquanto a Eucaristia é presença real a ser adorada, neste caso trata-se apenas de uma imagem que, embora tenha sido abençoada, nos convida a ir além dela, nos orienta a elevar e unir o nosso próprio coração ao de Cristo vivo. A imagem venerada convoca, aponta, conduz, a fim de dedicarmos tempo ao encontro com Cristo e à sua adoração, conforme nos pareça melhor imaginá-Lo. Assim, olhando a imagem, estamos diante de Cristo, e diante d’Ele «o amor se detém, contempla o mistério, desfruta dele em silêncio» [35].
Dito tudo isto, não devemos esquecer que esta imagem do coração nos fala de carne humana, da terra, e por isso nos fala também de Deus que quis entrar na nossa condição histórica, fazer-se história e partilhar o nosso caminho terreno. Uma forma de devoção mais abstrata ou estilizada não será necessariamente mais fiel ao Evangelho, porque neste sinal sensível e acessível se manifesta o modo como Deus quis revelar-se e tornar-se próximo de nós.
Amor e coração não estão necessariamente unidos, pois num coração humano podem reinar o ódio, a indiferença e o egoísmo. Porém, não atingimos a nossa plena humanidade se não saímos de nós mesmos, tal como não nos tornamos inteiramente nós mesmos se não amamos. Portanto, o centro mais íntimo da nossa pessoa, criado para o amor, só realizará o projeto de Deus enquanto amar. Assim, o símbolo do coração simboliza ao mesmo tempo o amor.
O Filho eterno de Deus, que infinitamente me transcende, quis amar-me também com um coração humano. Os seus sentimentos humanos tornam-se o sacramento de um amor infinito e definitivo. O seu coração não é, portanto, um símbolo físico que só exprime uma realidade meramente espiritual ou separada da matéria. O olhar dirigido ao Coração do Senhor contempla uma realidade física: a sua carne humana, que torna possível que Cristo tenha emoções e sentimentos muito humanos – como nós –, embora plenamente transformados pelo seu amor divino. A devoção deve alcançar o amor infinito da pessoa do Filho de Deus, mas é preciso afirmar que este é inseparável do seu amor humano e, para isso, ajuda-nos a imagem do seu coração de carne.
Se ainda hoje no sentimento popular o coração é percebido como o centro afetivo de todo o ser humano, é ele que melhor pode significar o amor divino de Cristo que está unido para sempre e de modo inseparável ao seu amor integralmente humano. Já Pio XII recordava que a Palavra de Deus, quando «descreve o amor do coração de Jesus, não compreende somente a caridade divina, mas se estende também aos sentimentos do afeto humano. [...] Por conseguinte, o coração de Cristo, unido hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, sem dúvida deve ter palpitado de amor e de qualquer outro afeto sensível» [36].
Contrariamente a alguns que negavam ou relativizavam a verdadeira humanidade de Cristo, nos Padres da Igreja encontramos uma forte afirmação da realidade concreta e tangível do afeto humano do Senhor. Assim, São Basílio sublinhava que a incarnação do Senhor não era algo de fantasioso, mas que «o Senhor possuía os afetos naturais» [37]. São João Crisóstomo propunha um exemplo: «Se não tivesse possuído a nossa natureza, não teria experimentado a tristeza uma e outra vez» [38]. Santo Ambrósio afirmava: «Como tomou a alma, tomou também as paixões da alma» [39]. E Santo Agostinho apresentava os afetos humanos como uma realidade que, uma vez assumida por Cristo, já não é alheia à vida da graça: «O Senhor Jesus, não obrigado por necessidade, mas por voluntária compaixão assumiu este sentimento de fraqueza humana, como aceitara a própria carne na condição da humana fraqueza, para que [...] se a algum deles [os membros da Igreja] acontecer contristar-se e condoer-se no meio das tentações humanas, não julgue-se por isso alheio à graça de Deus» [40]. Finalmente, São João Damasceno considera esta real experiência afetiva de Cristo na sua humanidade como um sinal de que Ele assumiu integralmente a nossa natureza – e não parcialmente – para a redimir e transformar por inteiro. Assim, Cristo assumiu todos os elementos que compõem a natureza humana, a fim de que todos eles fossem santificados [41].
Vale a pena retomar aqui a reflexão de um teólogo que reconhece que, sob a influência do pensamento grego, a teologia relegou durante muito tempo o corpo e os sentimentos ao universo do «pré-humano, sub-humano ou tentador do verdadeiramente humano», mas «o que a teologia não resolveu na teoria, foi resolvido pela espiritualidade na prática. A espiritualidade e a religiosidade popular mantiveram viva a relação com os aspectos somáticos, psicológicos e históricos de Jesus. A Via-Sacra, a devoção às suas chagas, a espiritualidade do Preciosíssimo Sangue, a devoção ao Coração de Jesus, as práticas eucarísticas [...]: tudo isso preencheu as lacunas da teologia, alimentando a imaginação e o coração, o amor e a ternura por Cristo, a esperança e a memória, o desejo e a nostalgia. A razão e a lógica tomaram outros caminhos» [42].
Entretanto, não nos detemos só nos seus sentimentos humanos, por mais belos e comoventes que sejam, pois, contemplando o Coração de Cristo reconhecemos como nos seus sentimentos nobres e sadios, na sua ternura, no vibrar do seu afeto humano, se manifesta toda a verdade do seu amor divino e infinito. Assim o exprimiu Bento XVI: «Do horizonte infinito do seu amor, Deus quis entrar nos limites da história e da condição humana, assumiu um corpo e um coração; de modo que nós possamos contemplar e encontrar o infinito no finito, o Mistério invisível e inefável no Coração humano de Jesus, o Nazareno» [43].
Na realidade, há um tríplice amor que está contido e nos deslumbra na imagem do Coração do Senhor. Primeiramente, o amor divino infinito que encontramos em Cristo. Mas, pensamos também na dimensão espiritual da humanidade do Senhor. Desde esse ponto de vista, «o coração de Cristo é símbolo de enérgica caridade, que, infundida em sua alma, constitui o precioso dote da sua vontade humana […]. Finalmente […] é símbolo do seu amor sensível» [44].
Estes três amores não são capacidades separadas, funcionando de forma paralela ou desconexa, mas atuam e exprimem-se em conjunto e num fluxo constante de vida: «À luz da fé, pela qual cremos que na pessoa de Cristo estão unidas a natureza humana e a natureza divina, podemos conceber os estreitíssimos vínculos que existem entre o amor sensível do coração físico de Jesus e o seu duplo amor espiritual, o humano e o divino» [45].
Por isso, entrando no Coração de Cristo, sentimo-nos amados por um coração humano, cheio de afetos e sentimentos como os nossos. A sua vontade humana quer amar-nos livremente, e esse querer espiritual está plenamente iluminado pela graça e pela caridade. Quando chegamos ao mais íntimo desse Coração, somos inundados pela glória incomensurável do seu amor infinito de Filho eterno, que já não podemos separar do seu amor humano. É precisamente no seu amor humano, e não afastando-nos dele, que encontramos o seu amor divino; encontramos «o infinito no finito» [46].
É ensinamento constante e definitivo da Igreja que a nossa adoração da sua Pessoa é única, e abrange inseparavelmente tanto a sua natureza divina como a sua natureza humana. Desde os tempos antigos, a Igreja ensinou que devemos «adorar um único e mesmo Cristo, Filho de Deus e do homem, de duas e em duas naturezas inseparáveis e indivisas» [47]. E isto «com uma única adoração [...], visto que o Verbo veio a ser carne» [48]. De modo algum Cristo é «adorado em duas naturezas, introduzindo com isto duas adorações», mas deve-se «venerar com única adoração o Deus Verbo encarnado junto com a sua carne» [49].
São João da Cruz quis exprimir que, na experiência mística, o amor incomensurável de Cristo ressuscitado não é sentido como estranho à nossa vida. O Infinito de algum modo desce para que, através do Coração aberto de Cristo, possamos experimentar um encontro de amor verdadeiramente recíproco: «É bem possível que a ave de voo baixo possa prender a Águia-real das alturas, quando Ela Se abaixa querendo ser presa» [50]. E explica que «vendo a esposa ferida pelo seu amor, acorre ao seu gemido, ferido também Ele pelo amor dela; é que, nos apaixonados, a ferida de um é de ambos, e os dois sentem o mesmo» [51]. Este místico entende a figura do lado ferido de Cristo como um apelo à plena união com o Senhor. Ele é o cervo vulnerado, ferido quando ainda não nos tínhamos deixado tocar pelo seu amor, que desce às correntes de água para saciar a sua própria sede e que encontra conforto sempre que nos dirigimos a Ele: «Volta, minha pomba, Que, ferido, o veado Lá no outeiro assoma Ao sopro do teu voo e o fresco toma» [52].
A devoção ao Coração de Jesus é marcadamente cristológica; é uma contemplação direta de Cristo que convida à união com Ele. Isto é legítimo, se tivermos em conta o que pede a Carta aos Hebreus: correr a nossa prova «tendo os olhos postos em Jesus» ( Heb 12, 2). Entretanto, não podemos ignorar que, ao mesmo tempo, Jesus se apresenta como o caminho para ir ao Pai: «Eu sou o caminho [...]. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim» ( Jo 14, 6). Ele quer conduzir-nos ao Pai. É por isso que a pregação da Igreja, desde o início, não nos detém em Jesus Cristo, mas nos conduz ao Pai. Ele é quem por fim, enquanto plenitude originária, deve ser glorificado [53].
Detenhamo-nos, por exemplo, na carta aos Efésios, onde podemos ver com força e clareza como a nossa adoração se dirige ao Pai: «Eu dobro os joelhos diante do Pai» ( Ef 3, 14). «Um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» ( Ef 4, 6). «Sem cessar, dai graças por tudo a Deus Pai» ( Ef 5, 20). O Pai é Aquele a quem estamos destinados (cf. 1 Cor 8, 6). Por isso, São João Paulo II dizia que «toda a vida cristã é como uma grande peregrinação para a casa do Pai» [54]. É o que experimentou Santo Inácio de Antioquia no seu caminho para o martírio: «Dentro de mim, há uma água viva, que murmura e diz: “Vem para o Pai”» [55].
Ele é, acima de tudo, o Pai de Jesus Cristo: «Bendito seja o Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo» ( Ef 1, 3). É «o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória» ( Ef 1, 17). Quando o Filho se fez homem, todos os desejos e aspirações do seu coração humano se dirigiam ao Pai. Se vemos como Cristo se referia ao Pai, podemos constatar este fascínio do seu coração humano, esta orientação perfeita e constante para o Pai [56]. A sua história nesta nossa terra foi um caminhar sentindo no seu coração humano um apelo incessante para ir ao Pai [57].
Sabemos que a palavra aramaica que Ele usou para se dirigir ao Pai foi “Abbá”, que significa “paizinho”. No seu tempo, esta familiaridade incomodava alguns (cf. Jo 5, 18). É a expressão que Jesus usa para falar com o Pai quando surgiu a angústia da morte: «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres» (Mc 14, 36). Reconheceu-se sempre amado pelo Pai: «por me teres amado antes da criação do mundo» (Jo 17, 24). E, no seu coração humano, Jesus ficou em êxtase ao ouvir o Pai dizer-lhe: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado» (Mc 1, 11).
O quarto Evangelho diz que o Filho eterno do Pai esteve sempre «no seio do Pai» [58] ( Jo 1, 18). Santo Ireneu refere-se ao «Filho de Deus [...] existindo desde sempre junto do Pai» [59]. E Orígenes sustenta que o Filho persevera «na contemplação perpétua da profundeza paterna» [60]. Por isso, quando o Filho se fez homem, passou noites inteiras a comunicar com o Pai amado, no cimo da montanha (cf. Lc 6, 12). Dizia: «Tenho de estar na Casa do Meu Pai» ( Lc 2, 49). Vejamos as suas expressões de louvor: «Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra”» ( Lc 10, 21). E as suas últimas palavras, cheias de confiança, foram: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» ( Lc 23, 46).
Voltemos agora o nosso olhar para o Espírito Santo, que enche o Coração de Cristo e arde n’Ele. Porque, como dizia São João Paulo II, o Coração de Cristo é «a obra-prima do Espírito Santo» [61]. Não se trata apenas de uma coisa do passado, pois «no Coração de Cristo é viva a ação do Espírito Santo, ao qual Jesus atribuiu a inspiração da sua missão (cf. Lc 4, 18; cf. Is 61, 1) e do qual na Última Ceia prometera o envio. É o Espírito que ajuda a acolher a riqueza do sinal do lado trespassado de Cristo, do qual brotou a Igreja (cf. Const. Sacrosanctum Concilium, 5)» [62]. Em suma, «só o Espírito Santo pode abrir diante de nós esta plenitude do “homem interior”, que se encontra no Coração de Cristo. Somente Ele pode fazer com que desta plenitude consigam haurir força, gradualmente, também os nossos corações humanos» [63].
Se buscamos aprofundar o mistério da ação do Espírito, vemos que Ele geme em nós e diz “Abbá”: «Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! – Pai!”» (Gl 4, 6). Com efeito, «esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus» (Rm 8, 16).A ação do Espírito Santo no coração humano de Cristo provoca constantemente esta atração ao Pai. E quando pela graça nos une aos sentimentos de Cristo, faz-nos participantes da relação do Filho com o Pai, é o «Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai!» (Rm 8, 15).
Assim, a nossa relação com o Coração de Cristo transforma-se sob o impulso do Espírito, que nos orienta para o Pai, fonte da vida e origem última da graça. O próprio Cristo não deseja que nos detenhamos somente n’Ele. O amor de Cristo é «Revelação da misericórdia do Pai» [64]. O seu desejo é que, impelidos pelo Espírito que brota do seu Coração, “com Ele e n’Ele” nos dirijamos ao Pai. A glória dirige-se ao Pai “por” Cristo [65], “com” Cristo [66] e “em” Cristo [67]. São João Paulo II ensinou que «o Coração do Salvador convida a subir de novo ao amor do Pai, que é a fonte de todo o amor autêntico» [68]. É isto mesmo que o Espírito Santo, chegando a nós a partir do Coração de Cristo, procura alimentar nos nossos corações. Por isso, a Liturgia, sob a ação vivificante do Espírito, dirige-se sempre ao Pai a partir do Coração ressuscitado de Cristo. Expressões recentes do Magistério
O Coração de Cristo esteve presente na história da espiritualidade cristã de diversas maneiras. Na Bíblia e nos primeiros séculos da Igreja, aparecia sob a figura do lado ferido do Senhor, quer como fonte de graça, quer como apelo a um encontro íntimo de amor. Assim reapareceu constantemente no testemunho de muitos santos até aos nossos tempos. Nos últimos séculos, esta espiritualidade tomou a forma de um verdadeiro culto ao Coração do Senhor.
Alguns dos meus predecessores referiram-se ao Coração de Cristo e, com expressões variadas, convidaram a unir-se a Ele. No final do século XIX, Leão XIII convidava-nos a consagrarmo-nos a Ele e, na sua proposta, unia ao mesmo tempo o apelo à união com Cristo e a admiração perante o esplendor do seu amor infinito [69]. Cerca de trinta anos depois, Pio XI apresentou esta devoção como o resumo da experiência da fé cristã [70]. Além disso, Pio XII sustentou que o culto do Sagrado Coração exprime de forma excelente, como uma síntese sublime, a nossa adoração a Jesus Cristo [71].
Mais recentemente, São João Paulo II apresentou o desenvolvimento deste culto nos séculos passados como uma resposta ao crescimento de formas de espiritualidade rigoristas e desencarnadas que esqueciam a misericórdia do Senhor, mas ao mesmo tempo como um apelo contemporâneo a um mundo que procura construir-se sem Deus: «A devoção ao Sagrado Coração, do modo como se desenvolveu na Europa de há dois séculos, sob o impulso das experiências místicas de Santa Margarida Maria Alacoque, foi a resposta à rigorosidade jansenista, que tinha acabado por menosprezar a infinita misericórdia de Deus. [...] O homem do Ano 2000 tem necessidade do Coração de Cristo para conhecer Deus e para se conhecer a si mesmo; tem necessidade dele para construir a civilização do amor» [72].
Bento XVI convidava a reconhecer o Coração de Cristo como uma presença íntima e quotidiana na vida de todos: «Cada pessoa precisa de um “centro” da própria vida, de uma fonte de verdade e de bondade da qual haurir no suceder-se das diversas situações e na fadiga da quotidianidade. Cada um de nós, quando se detém no silêncio, precisa de ouvir não só o palpitar do próprio coração, mas, mais em profundidade, o pulsar de uma presença de confiança, perceptível com os sentidos da fé e contudo muito mais real: a presença de Cristo, coração do mundo» [73].
A imagem expressiva e simbólica do Coração de Cristo não é o único recurso que o Espírito Santo nos dá para encontrar o amor de Cristo, e terá sempre necessidade de ser enriquecida, iluminada e renovada através da meditação, da leitura do Evangelho e do amadurecimento espiritual. Já Pio XII dizia que a Igreja não pretende que «no coração de Jesus se deva ver e adorar a chamada imagem formal, quer dizer, a representação perfeita e absoluta do seu amor divino, não sendo possível, como não é, representar adequadamente por qualquer imagem criada a íntima essência desse amor» [74].
A devoção ao Coração de Cristo é essencial para a nossa vida cristã, na medida em que significa a nossa abertura, cheia de fé e de adoração, ao mistério do amor divino e humano do Senhor, até ao ponto de podermos voltar a afirmar que o Sagrado Coração é um compêndio do Evangelho [75]. É preciso lembrar que as visões ou manifestações místicas narradas por alguns dos santos que propuseram apaixonadamente a devoção ao Coração de Cristo não são algo em que os fiéis sejam obrigados a acreditar como se fosse a Palavra de Deus [76]. São belos estímulos que podem motivar e fazer muito bem, embora ninguém se deva sentir obrigado a segui-los se não achar de proveito no seu caminho espiritual. Do mesmo modo, é necessário recordar sempre, como afirmou Pio XII, que não se pode dizer que este culto «deve a sua origem a revelações privadas» [77].
A proposta da comunhão eucarística nas primeiras sextas-feiras do mês, por exemplo, era uma mensagem forte numa época em que muitas pessoas deixavam de comungar por não confiarem no perdão divino, na sua misericórdia, e consideravam a comunhão como uma espécie de recompensa para os perfeitos.Naquele contexto jansenista, a promoção desta prática fez muito bem, ajudando-nos a reconhecer na Eucaristia o amor gratuito e próximo do Coração de Cristo que nos chama à união com Ele. Podemos afirmar que hoje também faria muito bem por outra razão: porque no meio do turbilhão do mundo atual e da nossa obsessão pelo tempo livre, do consumo e da distração, dos telefones e das redes sociais, esquecemo-nos de alimentar a nossa vida com a força da Eucaristia.
Da mesma forma, ninguém deve sentir-se obrigado a fazer uma hora de adoração às quintas-feiras. Mas como não o recomendar? Quando alguém vive com fervor esta prática, junto de tantos irmãos e irmãs, e encontra na Eucaristia todo o amor do Coração de Cristo, «adora juntamente com a Igreja o símbolo e como que a marca da caridade divina, caridade que com o coração do Verbo encarnado chegou até a amar o género humano» [78].
Isto era difícil de compreender para muitos jansenistas, que desprezavam tudo o que era humano, afetivo, corpóreo, e entendiam, em última análise, que esta devoção nos afastava da mais pura adoração ao Deus Altíssimo. Pio XII chamou «falso misticismo» [79] a esta atitude elitista de alguns grupos que viam a Deus tão alto, tão separado, tão distante, que consideravam as expressões sensíveis da piedade popular perigosas e necessitadas de controle eclesiástico.
Poder-se-ia afirmar que hoje, mais do que o jansenismo, enfrentamos um forte avanço da secularização que visa um mundo livre de Deus. Acrescenta-se a isso, a multiplicação na sociedade de várias formas de religiosidade sem referência a uma relação pessoal com um Deus de amor, que são novas manifestações de uma “espiritualidade sem carne”. Isto é real. No entanto, devo advertir que, no seio da própria Igreja, o nefasto dualismo jansenista renasceu com novos rostos. Ganhou força renovada nas últimas décadas, mas é uma manifestação daquele gnosticismo que já nos primeiros séculos da fé cristã causava dano à espiritualidade e ignorava a verdade da “salvação da carne”. Por isso, dirijo o meu olhar para o Coração de Cristo e convido a renovar esta devoção. Espero que possa ser atrativa também à sensibilidade atual e que nos ajude assim a enfrentar estes velhos e novos dualismos, aos quais oferece uma resposta adequada.
Gostaria de acrescentar que o Coração de Cristo nos liberta, ao mesmo tempo, de um outro dualismo: o de comunidades e pastores concentrados apenas em atividades exteriores, em reformas estruturais desprovidas de Evangelho, em organizações obsessivas, em projetos mundanos, em reflexões secularizadas, em várias propostas apresentadas como requisitos que, por vezes, se pretendem impor a todos.O resultado é, muitas vezes, um cristianismo que esqueceu a ternura da fé, a alegria do serviço, o fervor da missão pessoa-a-pessoa, a cativante beleza de Cristo, a gratidão emocionante pela amizade que Ele oferece e pelo sentido último que dá à vida. Em suma, outra forma de transcendentalismo enganador, igualmente desencarnado.
Estas doenças tão atuais, das quais – se nos deixamos aprisionar – nem sequer sentimos o desejo de ser curados, levam-me a propor a toda a Igreja um novo aprofundamento sobre o amor de Cristo representado no seu santo Coração. Aí encontramos todo o Evangelho, aí está sintetizada a verdade em que acreditamos, aí está tudo o que adoramos e procuramos na fé, aí está o que mais precisamos.
Perante o Coração de Cristo, é possível voltar à síntese encarnada do Evangelho e viver o que propus há pouco, recordando a amada Santa Teresa do Menino Jesus: «A atitude mais adequada é depositar a confiança do coração fora de nós mesmos, ou seja, na infinita misericórdia de um Deus que ama sem limites e que deu tudo na Cruz de Jesus» [80]. Ela viveu-a intensamente porque descobriu no coração de Cristo que Deus é amor: «A mim deu-me a sua Misericórdia infinita, e é através dela que contemplo e adoro as demais perfeições divinas» [81]. É por isso que a oração mais popular, dirigida como um dardo ao Coração de Cristo, diz simplesmente: «Eu confio em Vós» [82]. Não são necessárias mais palavras.
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