Capítulo 4
AMOR QUE DÁ DE BEBER
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Voltemos à Sagrada Escritura, aos textos inspirados que são o lugar principal onde encontramos a Revelação. Nelas e na Tradição viva da Igreja está contido o que o próprio Senhor nos quis dizer para toda a história. A partir da leitura de textos do Antigo e do Novo Testamento, recolheremos alguns dos efeitos da Palavra no longo caminho espiritual do Povo de Deus.
A Bíblia mostra que uma abundância de água vivificante foi anunciada ao povo que tinha caminhado pelo deserto e esperava a libertação: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação» (Is 12, 3). Os anúncios messiânicos assumiram a forma de uma fonte de água purificadora: «Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados [...] introduzirei em vós um espírito novo» (Ez 36, 25-26). É a água que restituirá ao povo uma existência plena, como uma fonte que jorra do templo e, ao passar, derrama vida e saúde: «Eis que havia à beira da torrente grande quantidade de árvores, em cada uma das margens. [...] Por onde quer que a torrente passar, todo o ser vivo que se move viverá [...] porque aonde quer que esta água chegar, tornar-se-á salubre; e a vida desenvolver-se-á por toda a parte aonde ela chegar» (Ez 47, 7.9).
A festa judaica das Tendas ( Sukkot), que comemorava os quarenta anos no deserto, tinha gradualmente assumido o símbolo da água como elemento central, e previa para cada manhã um rito de oferenda de água, que se tornava muito solene no último dia da festa: fazia-se uma grande procissão até ao templo onde, finalmente, eram dadas sete voltas em torno do altar e, com grande alvoroço, se oferecia água a Deus [83].
O anúncio da chegada do tempo messiânico é apresentado como uma fonte aberta para o povo: «Derramarei sobre a casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de benevolência e de súplica. Eles contemplarão aquele a quem trespassaram. [...] Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, para a purificação do pecado e da impureza» (Zc 12, 10; 13, 1).
Um homem trespassado, uma fonte aberta, um espírito de benevolência e de súplica. Os primeiros cristãos inevitavelmente viam esta promessa cumprida no lado aberto de Cristo, fonte de onde brota a vida nova. Ao percorrermos o Evangelho de João, vemos como aquela profecia se cumpriu em Cristo.Contemplamos o seu lado trespassado, de onde jorrava a água do Espírito: «Um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água» (Jo 19, 34). E o evangelista acrescenta: «Hão-de olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19, 37). Retoma assim o anúncio do profeta que prometia ao povo uma fonte aberta em Jerusalém, quando olhassem para o trespassado (cf. Zc 12, 10). A fonte aberta é o lado ferido de Jesus Cristo.
Notemos que o próprio Evangelho anuncia este momento sagrado, precisamente «no último dia, o mais solene da festa» das Tendas (Jo 7, 37). Naquele momento, Jesus bradou ao povo que celebrava, na grande procissão: «Se alguém tem sede, venha a mim […] hão de correr do seu coração rios de água viva» (Jo 7, 37-38). Para isso, era preciso que chegasse a sua “hora”, «porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (Jo 7, 39). Tudo se cumpriu na fonte transbordante da Cruz.
No Apocalipse, reaparece tanto o Trespassado – «Todos os olhos o verão, até mesmo os que o trespassaram» (Ap 1, 7) –, como a fonte aberta – «O que tem sede que se aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida» (Ap 22, 17).
O lado trespassado é ao mesmo tempo a sede do amor, um amor que Deus declarou ao seu povo com tantas palavras diferentes que vale a pena recordar: «És precioso aos meus olhos, […] te estimo e te amo» (Is 43, 4). «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos» (Is 49, 15-16). «Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará» (Is 54, 10). «Amei-te com um amor eterno. Por isso, dilatei a misericórdia para contigo» (Jr 31, 3). «O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará.Ele dança e grita de alegria por tua causa» (Sf 3, 17).
O profeta Oseias chega a falar do coração de Deus: «Segurava-os com laços humanos, com laços de amor» (Os 11, 4). Por causa desse mesmo amor desprezado, podia dizer: «O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas» (Os 11, 8). Mas sempre vencerá a misericórdia (cf. Os 11, 9), que alcançará a sua expressão máxima em Cristo, palavra definitiva de amor.
No Coração trespassado de Cristo estão concentradas, escritas na carne, todas as expressões de amor das Escrituras. Não se trata de um amor simplesmente declarado, mas o seu lado aberto é fonte de vida para o amado; é aquela fonte que sacia a sede do seu povo. Como ensinou São João Paulo II, «os elementos essenciais desta devoção pertencem também de modo permanente à espiritualidade da Igreja ao longo da sua história; porque desde o princípio a Igreja elevou o seu olhar para o Coração de Cristo trespassado na Cruz» [84]. Ressonâncias da Palavra na história
Consideremos alguns dos efeitos que esta Palavra de Deus produziu na história da fé cristã. Vários Padres da Igreja, sobretudo da Ásia Menor, mencionaram a chaga do lado de Jesus como a origem da água do Espírito: a Palavra, a sua graça e os sacramentos que a comunicam. A força dos mártires vive da «fonte celeste de água viva que brota das entranhas de Cristo» [85], ou, como traduz Rufino, «das fontes celestes e eternas que procedem das entranhas de Cristo» [86]. Os fiéis, que renascemos pelo Espírito, viemos dessa fenda do rochedo, «saímos do ventre de Cristo» [87]. O seu lado ferido, que interpretamos como o seu coração, está cheio do Espírito Santo, e a partir dele chegam até nós rios de água viva: «Em Cristo permanece a fonte de todo o Espírito Santo» [88]. Mas o Espírito que recebemos não nos afasta do Senhor ressuscitado, antes nos enche d’Ele, porque, ao bebermos do Espírito, bebemos o próprio Cristo: «Bebe Cristo, porque é a rocha que jorra água; bebe Cristo, porque é a fonte da vida; bebe Cristo, porque é o rio cujo ímpeto alegra a cidade de Deus; bebe Cristo, porque é a paz; bebe Cristo, porque do seu ventre brota um rio de água viva» [89].
Santo Agostinho abriu o caminho para a devoção ao Sagrado Coração como lugar de encontro pessoal com o Senhor. Ou seja, para ele o lado de Cristo não é só fonte de graça e de sacramentos, mas personaliza-o, apresentando-o como símbolo da união íntima com Cristo, como lugar de um encontro amoroso. É aí que reside a origem da sabedoria mais preciosa, que é conhecê-Lo. Com efeito, Agostinho escreve que João, o amado, quando inclinou a sua cabeça sobre o peito de Jesus, durante a última ceia, aproximou-se do lugar secreto da sabedoria [90]. Não se trata de uma simples contemplação intelectual de uma verdade teológica. São Jerónimo explica que uma pessoa capaz de contemplar «não retira das correntes de água nenhum deleite, mas bebe a água viva do lado do Senhor» [91].
São Bernardo retomou o simbolismo do lado trespassado do Senhor, entendendo-o explicitamente como revelação e dom do amor do seu Coração. Através da chaga, ele torna-se acessível a cada um de nós e é possível fazer nosso o grande mistério do amor e da misericórdia: «O que a mim me falta, eu extraio das entranhas do Senhor, pois estas transbordam misericórdia e não faltam fendas pelas quais ela passa. Trespassaram-lhe as mãos e os pés, perfuraram-lhe o lado com uma lança. E por essas fendas posso extrair mel da pedra e óleo da rocha duríssima, isto é, posso saborear e ver quão suave é o Senhor [...] O ferro trespassou-lhe a alma, e aproximou-se do seu coração, para que não deixe já de saber como se compadecer das minhas fraquezas. O segredo do seu coração é patente através das chagas do corpo, é patente o grande sacramento da piedade, são patentes as vísceras de misericórdia do nosso Deus» [92].
Isto reaparece de forma especial em Guilherme de Saint-Thierry, o qual convidava a entrar no Coração de Jesus, que nos alimenta no seu próprio seio [93]. Não é de admirar, se recordamos que para este autor «a arte do amor é a arte das artes [...]. Este mesmo amor é incutido pelo Criador [...]. Com efeito, o amor é uma força da alma, que a conduz como que por um peso natural ao lugar e ao fim que lhe são próprios» [94]. Esse lugar que lhe é próprio, onde o amor reina em plenitude, é o Coração de Cristo: «Aonde pois, Senhor, conduzis aqueles que abraçais e estreitais em vossos braços, senão para o vosso coração? O vosso coração, Jesus, é aquele doce maná da vossa divindade (cf. Heb 9, 4), que guardais no vosso interior, no cofre áureo da vossa alma que supera toda a sabedoria. Felizes os que conduzis até lá com o vosso abraço. Felizes os que, imersos nestas profundezas, foram escondidos por Vós dentro do Vosso coração» [95].
São Boaventura une as duas linhas espirituais em torno do Coração de Cristo: ao mesmo tempo que o apresenta como fonte dos sacramentos e da graça, propõe que esta contemplação se torne uma relação de amigos, um encontro pessoal de amor.
Por um lado, ajuda-nos a reconhecer a beleza da graça e dos sacramentos que brotam daquela fonte de vida que é o lado ferido do Senhor: «Para que do lado de Cristo morto na cruz se formasse a Igreja e se cumprisse a palavra da Escritura que diz: “Hão de olhar para Aquele que trespassaram”, a divina providência permitiu que um dos soldados lhe abrisse com a lança o lado sacrossanto e dele fizesse brotar sangue e água. Este é o preço da nossa salvação, saído daquela divina fonte, isto é, do íntimo do seu Coração, para dar aos sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça e se tornar para aqueles que vivem em Cristo uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna» [96].
Depois convida-nos a dar mais um passo, para que o acesso à graça não se torne algo de mágico, ou uma espécie de emanação neoplatónica, mas uma relação direta com Cristo, habitando no seu Coração, pois quem bebe é amigo de Cristo, é um coração amoroso: «Levanta-te, pois, tu que amas a Cristo, sê como a pomba que faz o seu ninho na borda do rochedo, e aí, como o pássaro que encontrou sua morada, não cesses de estar vigilante; aí esconde, como a andorinha, os filhos nascidos do casto amor» [97]. A difusão da devoção ao Coração de Cristo
O lado trespassado, onde reside o amor de Cristo, do qual, por sua vez, brota a vida da graça, assumiu gradualmente a forma do coração, sobretudo na vida monástica. Sabemos que, ao longo da história, o culto ao Coração de Cristo não se manifestou de modo igual, e que os aspectos desenvolvidos nos tempos modernos, relacionados com diversas experiências espirituais, não podem ser extrapolados para as formas medievais e muito menos para as formas bíblicas, nas quais podemos vislumbrar as sementes deste culto. No entanto, hoje a Igreja não despreza nenhum dos bens que o Espírito Santo nos deu ao longo dos séculos, sabendo que será sempre possível reconhecer em certos pormenores da devoção um sentido mais claro e pleno, ou compreender e desvendar novos aspectos dela.
Várias mulheres santas relataram experiências de encontro com Cristo, caracterizado pelo repouso no Coração do Senhor, fonte de vida e de paz interior. É o caso de Santa Lutgarda, Santa Matilde de Hackeborn, Santa Ângela de Foligno, Juliana de Norwich, entre outras. Santa Gertrudes de Helfta, monja cisterciense, contou um momento de oração durante o qual reclinou a cabeça sobre o Coração de Cristo e escutou os seus batimentos. Num diálogo com São João Evangelista, ela pergunta-lhe por que razão, no seu Evangelho, não fala do que viveu quando teve a mesma experiência. Gertrudes conclui que «a doçura destes batimentos foi reservada aos tempos modernos, para que, ao escutá-los, o mundo envelhecido e morno possa renovar-se no amor de Deus» [98]. Poderíamos pensar que se trata de um anúncio referente ao nosso tempo, um apelo a reconhecer como este mundo se tornou “velho”, necessitado de receber a mensagem sempre nova do amor de Cristo? Santa Gertrudes e Santa Matilde foram consideradas entre «as mais íntimas confidentes do Sagrado Coração» [99].
Os monges cartuxos, encorajados sobretudo por Ludolfo da Saxónia, encontraram na devoção ao Sagrado Coração um meio de encher de afeto e proximidade a sua relação com Jesus Cristo. Quem entra pela ferida do seu Coração é abrasado em chamas de afeto. Santa Catarina de Sena escreveu que os sofrimentos que o Senhor suportou não são algo que possamos presenciar, mas que o Coração aberto de Cristo é para nós a possibilidade de um encontro real e pessoal com tanto amor: «Eis quanto eu manifestei na chaga do meu peito, no momento em que compreendeste o segredo do meu coração. Fiz ver que meu amor por vós é mais profundo de quanto possa indicar a dor passageira» [100].
A devoção ao Coração de Cristo transcendeu gradualmente a vida monástica e encheu a espiritualidade de santos mestres, pregadores e fundadores de congregações religiosas que a difundiram nas regiões mais remotas da terra [101].
Particularmente interessante foi a iniciativa de São João Eudes, que «depois de ter pregado com os seus missionários uma fervorosíssima missão em Rennes, conseguiu que o bispo aprovasse nessa diocese a celebração da festa do Coração Adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi a primeira vez que esta festa foi oficialmente autorizada na Igreja. Mais tarde, os bispos de Coutances, de Evreux, de Bayeux, de Lisieux e de Rouen autorizaram a mesma festa para as suas respectivas dioceses entre os anos de 1670 e 1671» [102].
Nos tempos modernos, destaca-se o contributo de São Francisco de Sales. Ele contemplou muitas vezes o Coração aberto de Cristo, que nos convida a habitar dentro dele numa relação pessoal de amor, na qual se iluminam os mistérios da vida. Podemos ver no pensamento deste santo doutor como, face a uma moral rigorista ou a uma religiosidade de mero cumprimento de obrigações, o Coração de Cristo lhe aparece como um apelo à plena confiança na ação misteriosa da sua graça. É assim que ele se exprime na sua proposta à baronesa de Chantal: «É para mim bem claro que não permaneceremos mais em nós mesmos [...] habitaremos para sempre no lado trespassado do Salvador, pois sem ele não só não podemos, mas, mesmo que pudéssemos, não quereríamos fazer nada» [103].
Para ele, a devoção estava longe de se tornar uma forma de superstição ou uma objetivação indevida da graça, porque significava um convite a uma relação pessoal em que cada um se sente único perante Cristo, reconhecido na sua realidade irrepetível, pensado por Cristo e valorizado de forma direta e exclusiva: «Este coração tão adorável e tão amável do nosso Mestre, todo ardente de amor por nós, um coração no qual veremos escritos todos os nossos nomes [...]. Certamente isto é um tema de grande consolação: Que sejamos tão amados por Nosso Senhor a ponto de nos levar sempre no seu Coração» [104]. Este nome próprio escrito no Coração de Cristo foi o modo como São Francisco de Sales procurou simbolizar até onde o amor de Cristo por cada um não é abstrato ou genérico, mas implica uma personalização em que o fiel se sente valorizado e reconhecido em si mesmo: «Quão belo é este Céu, agora que o Salvador é como um sol e o seu peito como uma fonte de amor da qual os bem-aventurados bebem à vontade! Cada um vai lá dentro olhar e vê o seu nome escrito em caracteres de amor, que só o amor sabe ler e que só o amor ali gravou. Ah, Deus! Minha querida filha, não estarão lá os nossos? Estarão, sem dúvida; pois, embora o nosso coração não tenha amor, tem o desejo do amor e o princípio do amor» [105].
Ele considerava esta experiência tão fundamental para uma vida espiritual que colocava esta convicção entre as grandes verdades da fé: «Sim, minha querida Filha, Ele pensa em ti, e não só em ti, mas no menor cabelo da tua cabeça: é um artigo de fé do qual não se pode duvidar» [106]. A consequência disto é que o fiel se torna capaz de um completo abandono no Coração de Cristo, onde encontra repouso, consolação e força: «Ó Deus! Que felicidade estar assim entre os braços e o peito [do Salvador] […]. Permanece assim, querida Filha, e enquanto os demais comem na mesa do Salvador diferentes alimentos, repousa e reclina, com a mais simples confiança, como outro pequeno São João, a tua cabeça, a tua alma, o teu espírito sobre o peito amoroso deste querido Senhor» [107]. «Espero que estejas na caverna da pomba e no lado trespassado do nosso querido Salvador [...]. Quão bom é este Senhor, minha querida Filha! Quão amável é o seu Coração! Moremos ali, naquele santo domicílio» [108].
Mas, fiel ao seu ensinamento sobre a santificação na vida ordinária, propõe que esta seja vivida no meio das atividades, das tarefas e dos deveres do quotidiano: «Perguntais-me como as almas que são levadas na oração a esta santa simplicidade e a este perfeito abandono em Deus devem comportar-se em todos os seus atos? Respondo que, não só na oração, mas na conduta de toda a sua vida, devem caminhar invariavelmente em espírito de simplicidade, abandonando e entregando toda a sua alma, as suas ações e os seus sucessos à vontade de Deus, com um amor de perfeita e absoluta confiança, abandonando-se à graça e aos cuidados do amor eterno que a Divina Providência sente por elas» [109].
Por todas estas razões, no momento de pensar num símbolo que sintetizasse a sua proposta de vida espiritual, conclui: «Pensei então, querida Madre, se estiverdes de acordo, que devemos tomar como escudo um único coração trespassado por duas flechas, encerrado numa coroa de espinhos» [110].
Foi sob a influência salutar da espiritualidade de São Francisco de Sales que tiveram lugar os acontecimentos de Paray-le-Monial, no final do século XVII. Santa Margarida Maria Alacoque relatou importantes aparições entre o fim de dezembro de 1673 e junho de 1675. É fundamental a declaração de amor que se destaca na primeira grande aparição. Jesus diz: «O meu divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas da sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros, que eu te mostro a ti» [111].
Santa Margarida Maria resume tudo isto de uma forma poderosa e fervorosa: «Ali me descobriu as maravilhas do seu amor e os segredos insondáveis do seu Sagrado Coração, que sempre me tinha conservado escondidos até àquele momento em que mos abriu pela primeira vez, mas de modo tão real e sensível que me não deixou lugar a nenhuma dúvida» [112]. Nas declarações seguintes, reafirma-se a beleza desta mensagem: «Ele me mostrou as maravilhas inexplicáveis do seu puro amor, e o excesso a que ele tinha chegado em amar os homens» [113].
Este reconhecimento intenso do amor de Jesus Cristo que Santa Margarida Maria transmitiu oferece-nos valiosos estímulos para a nossa união com Ele. O que não significa que nos sintamos obrigados a aceitar ou assumir todos os pormenores desta proposta espiritual, onde, como muitas vezes acontece, se misturam com a ação divina elementos humanos relacionados com os nossos próprios desejos, inquietações e imagens interiores [114]. Tal proposta deve ser sempre relida à luz do Evangelho e de toda a rica tradição espiritual da Igreja, reconhecendo ao mesmo tempo o bem que fez em tantos irmãos e irmãs. Isto permite-nos reconhecer os dons do Espírito Santo no seio dessa experiência de fé e de amor. Mais importante do que os pormenores é o núcleo da mensagem que nos é transmitida e pode ser resumido nas palavras que Santa Margarida ouviu: «Eis aqui este Coração que tanto tem amado os homens, que a nada se tem poupado até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor» [115].
Esta manifestação é um convite a um crescimento no encontro com Cristo, graças a uma confiança sem reservas, até chegarmos a uma união plena e definitiva: «É preciso que o Divino Coração de Jesus substitua de tal forma o nosso, de modo que só Ele viva e atue em nós e por nós; que a sua vontade [...] possa atuar absolutamente sem resistência da nossa parte; e, finalmente, que os seus afetos, pensamentos e desejos estejam no lugar dos nossos, e sobretudo o seu amor, que se amará a si mesmo em nós e por nós. E assim, sendo este amável Coração tudo em todas as coisas, poderemos dizer com São Paulo que já não somos nós que vivemos, mas é Ele que vive em nós» [116].
Efetivamente, na primeira mensagem recebida, ela apresenta esta experiência de uma forma mais pessoal, mais concreta, cheia de fogo e de ternura: «Pediu-me o meu coração; eu roguei-lhe que o tomasse, o que ele fez, e meteu-o no seu adorável Coração, no qual mo mostrou como um atomozinho que se consumia naquela fornalha ardente» [117].
Num outro ponto, notamos que aquele que se entrega a nós é Cristo ressuscitado, cheio de glória, cheio de vida e de luz. Embora em diversos momentos fale dos sofrimentos que suportou por nós e das ingratidões que recebe, não sobressaem aqui o sangue e as feridas sofridas, mas a luz e o fogo do Vivente. As feridas da Paixão, que não desaparecem, são transfiguradas. Assim, o Mistério da Páscoa é aqui expresso na sua totalidade: «Uma vez, entre outras, quando estava o Santíssimo exposto, […] Jesus Cristo, meu doce Mestre, apareceu-me todo radiante de glória, com suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis; e a sua sagrada humanidade lançava chamas de todos os lados, mas sobretudo de seu sagrado peito, que parecia uma fornalha: abrindo-o, descobriu-me seu amantíssimo e amabilíssimo Coração, que era a fonte viva daquelas chamas. Foi então que ele me mostrou as maravilhas inexplicáveis do seu puro amor, e o excesso a que ele tinha chegado em amar aos homens, de quem não recebia senão ingratidões e frieza» [118].
Quando São Cláudio de La Colombière soube das experiências de Santa Margarida, tornou-se imediatamente seu defensor e divulgador. Ele teve um papel especial na compreensão e difusão desta devoção ao Sagrado Coração, mas também na sua interpretação à luz do Evangelho.
Enquanto algumas expressões de Santa Margarida, se mal entendidas, poderiam levar a confiar demasiado nos próprios sacrifícios e ofertas, São Cláudio evidencia que a contemplação do Coração de Cristo, se for autêntica, não provoca complacência em si mesmo nem vanglória nas experiências ou esforços humanos, mas um abandono indescritível em Cristo que enche a vida de paz, segurança e decisão. Ele exprimiu muito bem esta confiança absoluta numa célebre oração: «Meu Deus, estou tão convencido que velais sobre aqueles que em Vós confiam, e que nada pode faltar a quem de Vós tudo espera, que resolvi viver o futuro sem preocupação alguma, e descarregar sobre Vós todas as minhas preocupações [...]. O que nunca perderei é a esperança; conservá-la-ei até ao último instante da minha vida, embora todas as potências infernais se esforcem em vão por me roubar [...]. Esperem outros a felicidade das suas riquezas e talentos; confiem na inocência da sua vida, no rigor da sua penitência, no número das suas boas obras ou no fervor das suas orações […]. Quanto a mim, toda a minha confiança está fundada nesta minha mesma confiança. Ela nunca enganou ninguém. [...] E assim, estou seguro de que serei eternamente bem-aventurado, porque espero firmemente sê-lo, e é de Vós, ó meu Deus, que o espero» [119].
São Cláudio escreveu uma nota em janeiro de 1677, encabeçada por algumas linhas que se referem à segurança que sentia em relação à sua própria missão: «Reconheci que Deus quer servir-se de mim, procurando o cumprimento dos seus desejos relativamente à devoção que me sugeriu uma pessoa, com quem Ele se comunica confidencialmente, e em favor da qual Ele quis servir-se da minha fraqueza. Já a inspirei a muitas pessoas» [120].
É importante notar como, na espiritualidade de La Colombière, há uma bela síntese entre a rica e bela experiência espiritual de Santa Margarida e a contemplação muito concreta dos Exercícios inacianos. Ele escreve no início da terceira semana do mês dos Exercícios:«Duas coisas me comoveram sumamente e me mantiveram ocupado todo o tempo. A primeira é a disposição com que Jesus Cristo sai ao encontro daqueles que o procuram […]. Seu Coração está mergulhado num mar de amargura; todas as paixões estão soltas dentro dele, toda a natureza está desconcertada, e através de todas essas desordens e de todas essas tentações, o seu Coração se volta diretamente para Deus; ele não dá um passo em falso e não hesita em tomar o lado que lhe é sugerido pela virtude e pela mais alta virtude. […] A segunda coisa é a disposição deste mesmo Coração a respeito de Judas que o traiu, dos apóstolos que o abandonaram de modo covarde, dos sacerdotes e dos outros autores da perseguição a que foi sujeito. E tudo isto não foi capaz de despertar n’Ele o mínimo sentimento de ódio ou de indignação. […] Assim, represento para mim mesmo aquele Coração sem amargura, sem azedume, cheio de verdadeira ternura para com os seus inimigos» [121]. São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus
São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus, sem o pretenderem, reformularam certos elementos da devoção ao Coração de Cristo, ajudando-nos a compreendê-la de uma forma ainda mais fiel ao Evangelho. Vejamos agora como se exprime esta devoção nas suas vidas. No próximo capítulo voltaremos a eles para mostrar a originalidade da dimensão missionária que ambos desenvolveram de modos diferentes.
Em Louye, São Charles de Foucauld fazia visitas ao Santíssimo Sacramento com a sua prima, Madame de Bondy, e um dia ela indicou-lhe uma imagem do Sagrado Coração [122]. Para a conversão de Charles, esta sua prima foi fundamental, como ele reconhece: «Já que o bom Deus fez de ti o primeiro instrumento das suas misericórdias para comigo, todas as suas misericórdias vêm de ti. Se não me tivesses convertido, levado a Jesus e ensinado pouco a pouco, palavra por palavra, tudo o que é piedoso e bom, estaria eu onde estou hoje?» [123]. Mas, o que ela despertou nele foi exatamente a consciência ardente do amor de Jesus. Estava tudo ali, e era o mais importante. E isso concentrava-se particularmente na devoção ao Coração de Cristo, onde ele encontrava uma misericórdia sem limites: «Esperemos na misericórdia infinita d’Aquele cujo coração me fizestes conhecer» [124].
Depois, o seu diretor espiritual, Padre Henri Huvelin, ajudá-lo-á a aprofundar este precioso mistério: «Este Coração abençoado do qual me falaste tantas vezes» [125]. No dia 6 de junho de 1889, Charles consagra-se ao Sagrado Coração, no qual encontrava um amor absoluto. Diz a Cristo: «Cumulastes-me de tantos benefícios que me parece ser uma ingratidão para com o vosso coração não crer que ele esteja pronto a cumular-me de todo o bem, por maior que seja, e que o seu amor e a sua generosidade não têm medida» [126]. Será eremita «sob o nome do Sagrado Coração» [127].
No dia 17 de maio de 1906, no qual já não pôde mais celebrar a missa por se encontrar sozinho, Frei Charles escreveu esta promessa: «Deixar viver em mim o Coração de Jesus, de modo que já não seja eu a viver, mas o Coração de Jesus que viva em mim, como vivia em Nazaré» [128]. A sua amizade com Jesus, de coração a coração, não tinha nada de devocionismo íntimo. Era a raiz dessa vida despojada de Nazaré, pela qual Charles queria imitar Cristo e configurar-se com Ele. Esta terna devoção ao Coração de Cristo teve consequências muito concretas no seu estilo de vida e a sua Nazaré foi alimentada por esta relação muito pessoal com o Coração de Cristo.
Tal como São Charles de Foucauld, Santa Teresa do Menino Jesus respirou a enorme devoção que inundava a França no século XIX. Padre Almire Pichon foi o diretor espiritual da sua família e foi considerado um grande apóstolo do Sagrado Coração. Uma irmã sua tomou o nome religioso de “Maria do Sagrado Coração”, e o mosteiro em que Santa Teresa entrou era dedicado ao Sagrado Coração. No entanto, a sua devoção assumiu algumas características próprias, que iam além das formas pelas quais se expressava naquela época.
Quando tinha quinze anos, encontrou uma maneira de resumir a sua relação com Jesus: «Aquele cujo coração batia em uníssono com o meu» [129]. Dois anos mais tarde, quando lhe falavam de um Coração coroado de espinhos, acrescentou numa carta: «Sabes, eu não vejo o Sagrado Coração como toda a gente, penso que o coração do meu Esposo é só meu como o meu é só d’Ele e então falo-Lhe na solidão desta deliciosa intimidade esperando contemplá-l’O um dia face a face» [130].
Num poema, ela exprimiu o sentido da sua devoção, feita mais de amizade e confiança do que de segurança nos seus próprios sacrifícios: «Preciso de um coração ardente de ternura, que me dê a sua força sem reserva, que ame tudo em mim, mesmo a minha fraqueza..., que nunca me abandone de noite nem de dia. […] Preciso de um Deus que se revista da mesma natureza que se torne meu irmão e possa sofrer! […] Ah! bem sei que todas as nossas justiças não têm a teus olhos nenhum valor […]. E eu escolho para meu purgatório o teu Amor ardente, ó Coração do meu Deus» [131].
Talvez o texto mais relevante para compreender o significado da sua devoção ao Coração de Cristo seja a carta que escreveu, três meses antes de falecer, ao seu amigo Maurice Bellière: «Quando vejo Madalena avançar na presença dos numerosos convidados, banhar com as suas lágrimas os pés do Mestre adorado que toca pela primeira vez, sinto que o coração dela compreendeu os abismos de amor e de misericórdia do Coração de Jesus, e que, por muito pecadora que ela seja, este Coração de amor está não só disposto a perdoar-lhe, mas ainda a prodigalizar-lhe os benefícios da sua intimidade divina, a elevá-la até aos mais altos cumes da contemplação. Ah! meu querido Irmãozinho, desde que me foi dado compreender também o amor do Coração de Jesus, confesso que ele afastou do meu coração todo o temor. A lembrança das minhas faltas humilha-me, leva-me a nunca me apoiar na minha força que é só fraqueza, mas esta lembrança fala-me ainda mais de misericórdia e de amor» [132].
As mentes moralizantes, que pretendem controlar a misericórdia e a graça, diriam que Teresa podia afirmar isto porque era uma santa, mas que um pecador não poderia dizer o mesmo. Ao fazê-lo, retiram à espiritualidade de Teresa a sua bela novidade que reflete o coração do Evangelho. Infelizmente, tornou-se comum em alguns círculos cristãos tentar aprisionar o Espírito Santo num esquema que lhes permita ter tudo sob a sua supervisão. Entretanto, esta sábia Doutora da Igreja desmente-os e contradiz diretamente esta interpretação redutiva com palavras muito claras: «Ainda que eu tivesse cometido todos os crimes possíveis, mesmo assim teria sempre a mesma confiança: sinto que toda essa multidão de ofensas seria como uma gota de água lançada num braseiro ardente» [133].
À Irmã Maria, que a elogiava pelo seu amor generoso a Deus, disposto até ao martírio, responde longamente numa carta que é hoje um dos grandes marcos da história da espiritualidade. Esta página deveria ser lida milhares de vezes pela sua profundidade, clareza e beleza. Nela, Teresa ajuda a Irmã “do Sagrado Coração” a não concentrar esta devoção no âmbito da dor, já que alguns entendiam a reparação como uma espécie de primado dos sacrifícios ou de cumprimento moralista. Pelo contrário, ela resume tudo na confiança como a melhor oferta, agradável ao Coração de Cristo: «Os meus desejos de martírio não são nada, não são eles que me dão a confiança ilimitada que sinto no coração. Para dizer a verdade, são as riquezas espirituais que tornam alguém injusto, quando descansamos nelas com complacência, e cremos que são algo de grande. […] O que lhe agrada é ver-me amar a minha pequenez e a minha pobreza, é a esperança cega que tenho na sua misericórdia…. Eis o meu único tesouro […]. Se desejais sentir alegria, sentir atração pelo sofrimento, é a vossa consolação que procurais […]. Compreendei que para amar Jesus, para ser a sua vítima de amor, quanto mais fraco se é, sem desejos, nem virtudes, tanto mais puro se está para as operações deste Amor consumador e transformante […]. Oh, como eu queria fazer-vos compreender o que sinto! Só a confiança e nada mais do que a confiança tem de conduzir-nos ao Amor» [134].
Em muitos dos seus textos, percebe-se a sua luta contra formas de espiritualidade demasiadamente centradas no esforço humano, no mérito próprio, na oferta de sacrifícios, em certas tarefas para “ganhar o céu”. Para Teresa, «o mérito não consiste em fazer nem em dar muito, mas antes em receber» [135]. Leiamos mais uma vez alguns destes textos muito significativos onde ela insiste num outro caminho, que é um caminho simples e rápido para ganhar o Senhor através do coração.
Assim escreve à sua irmã Leónia: «Garanto-te que Deus é muito melhor do que tu imaginas. Contenta-se com um olhar, com um suspiro de amor… Quanto a mim acho a perfeição muito fácil de praticar, porque compreendi que nada há a fazer senão ganhar Jesus pelo coração… Vê uma criancinha que acaba de arreliar a mãe […]. Se lhe estende os bracinhos sorrindo e dizendo: “Dá-me um beijo, não torno mais a fazer isso”, poderá a mãe deixar de a apertar contra o coração com meiguice e esquecer as suas travessuras?… No entanto, sabe muito bem que o seu querido filho cairá de novo na próxima ocasião, mas não tem importância: se ele tornar a ganhá-la pelo coração, nunca será castigado» [136].
Numa carta ao padre Adolphe Roulland diz: «O meu caminho é todo de confiança e de amor, não compreendo as almas que têm medo de um Amigo tão terno. Às vezes quando leio certos tratados espirituais em que a perfeição é apresentada através de inúmeras dificuldades, rodeada por uma quantidade de ilusões, a minha pobre inteligência cansa-se muito depressa, fecho o sábio livro que me quebra a cabeça e me seca o coração e pego na Sagrada Escritura. Então tudo me parece luminoso, uma só palavra revela à minha alma horizontes infinitos, a perfeição parece-me fácil, vejo que basta reconhecer o próprio nada e abandonar-se como uma criança nos braços de Deus» [137].
E dirigindo-se ao padre Maurice Bellière, a propósito de um pai de família, observa: «Não acredito que o coração do ditoso pai possa resistir à confiança filial do filho de quem conhece a sinceridade e o amor. Não ignora todavia que o filho mais uma vez cairá nas mesmas faltas, mas está disposto a perdoar-lhe sempre, se o filho sempre lhe falar ao coração» [138]. Ressonâncias na Companhia de Jesus
Vimos como São Cláudio de La Colombière relacionava a experiência espiritual de Santa Margarida com a proposta dos Exercícios Espirituais. Penso que o lugar do Sagrado Coração na história da Companhia de Jesus mereça algumas breves palavras.
A espiritualidade da Companhia de Jesus sempre propôs um «conhecimento interno do Senhor […] para que mais o ame e o siga» [139]. Nos seus Exercícios Espirituais, Santo Inácio convida a colocarmo-nos diante do Evangelho que nos diz sobre Jesus: «ferido com a lança o seu lado, manou água e sangue» [140]. Quando o exercitante se encontra diante do lado ferido de Cristo, Inácio propõe-lhe entrar no Coração de Cristo. Trata-se de um caminho para amadurecer o próprio coração pela mão de um “mestre dos afetos”, segundo a expressão usada por São Pedro Fabro numa das suas cartas a Santo Inácio [141]. O jesuíta Juan Alfonso de Polanco também menciona esta expressão na sua biografia de Santo Inácio: «[o Cardeal Contarini] reconhecia ter encontrado no Padre Inácio um mestre dos afetos» [142]. Os colóquios que Santo Inácio propõe são uma parte essencial desta educação do coração, porque sentimos e saboreamos com o coração a mensagem do Evangelho e conversamos sobre ela com o Senhor. Santo Inácio diz que podemos comunicar as nossas coisas ao Senhor e pedir-lhe conselho sobre elas. Qualquer exercitante pode reconhecer que nos Exercícios há um diálogo de coração para coração.
Santo Inácio termina as contemplações aos pés do Crucificado, convidando o exercitante a dirigir-se com grande afeto ao Senhor crucificado e perguntar-lhe «como um amigo fala a outro, ou um servo a seu senhor» [143] o que deveria fazer por Ele. O itinerário dos Exercícios culmina na “Contemplação para alcançar amor”, da qual brota a ação de graças e a oferta da “memória, do entendimento e da vontade” ao Coração que é fonte e origem de todo o bem [144]. Tal conhecimento interior do Senhor não se constrói com as nossas luzes e esforços, mas pede-se como um dom.
Esta mesma experiência está na origem de uma longa cadeia de padres jesuítas que se referiram explicitamente ao Coração de Jesus, como São Francisco de Borja, São Pedro Fabro, Santo Afonso Rodrigues, Padre Álvarez de Paz, Padre Vicente Carafa, Padre Kasper Drużbicki e tantos outros. Em 1883, os Jesuítas declararam que «a Companhia de Jesus aceita e recebe com espírito pleno de alegria e gratidão, o suavíssimo encargo, que lhe foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo, de praticar, promover e propagar a devoção ao seu diviníssimo Coração» [145]. Em dezembro de 1871, o Padre Pieter Jan Beckx consagrou a Companhia ao Sagrado Coração de Jesus e o Padre Pedro Arrupe, como sinal de que ainda continuava a fazer parte da vida da Companhia, voltou a fazê-lo em 1972, com uma convicção que se expressa nestas palavras: «Quero dizer à Companhia algo que sinto não dever calar. Desde o meu noviciado, sempre estive convencido de que a chamada “Devoção ao Sagrado Coração” contém uma expressão simbólica da realidade mais profunda do espírito inaciano e uma eficácia extraordinária – ultra quam speraverint – tanto para o aperfeiçoamento pessoal como para a fecundidade apostólica. Ainda conservo a mesma convicção. […] Encontro nesta devoção uma das fontes mais íntimas da minha vida interior» [146].
Quando São João Paulo II convidou «todos os membros da Companhia a promover com ainda maior zelo esta devoção que corresponde mais do que nunca às expectativas do nosso tempo», fê-lo porque reconhecia os laços íntimos entre a devoção ao Coração de Cristo e a espiritualidade inaciana, pois «o desejo de “conhecer intimamente o Senhor” e de “ter um colóquio” com Ele, coração a coração, é caraterístico, graças aos Exercícios Espirituais, do dinamismo espiritual e apostólico inaciano, inteiramente ao serviço do amor ao Coração de Deus» [147]. Uma longa corrente de vida interior
A devoção ao Coração de Cristo reaparece no caminho espiritual de vários santos muito diferentes entre si e, em cada um deles, esta devoção assume novos aspectos. São Vicente de Paulo, para dar um exemplo, dizia que o que Deus quer é o coração: «Deus pede principalmente o coração, o coração, que é o principal. Por que razão quem não tem bens merece mais do que quem, tendo grandes posses, renuncia a elas? Porque quem não tem nada, vai a Ele com mais afeto; e é isso que Deus quer de modo especial» [148]. Isto implica aceitar que o próprio coração se una ao de Cristo: «Uma Irmã que faz todo o possível para predispor o seu coração a estar unido ao de Nosso Senhor […] quantas bênçãos não receberá de Deus!» [149].
Por vezes, somos tentados a considerar este mistério de amor como um admirável feito do passado, como uma bela espiritualidade de outros tempos, mas devemos recordar sempre de novo, como dizia um santo missionário, que «este Coração divino, que suportou ser trespassado por uma lança inimiga para poder derramar por aquela ferida sagrada os Sacramentos, onde se formou a Igreja, jamais deixou de amar» [150]. Santos mais recentes, como São Pio de Pietrelcina, Santa Teresa de Calcutá e tantos outros, falam com sincera devoção do Coração de Cristo. Mas gostaria de recordar também as experiências de Santa Faustina Kowalska, que repropõem a devoção ao Coração de Cristo colocando uma forte ênfase na vida gloriosa do Ressuscitado e na misericórdia divina. Com efeito, motivado pelas experiências desta santa e bebendo da herança espiritual do bispo São Józef Sebastian Pelczar (1842-1924) [151], São João Paulo II relacionou intimamente a sua reflexão sobre a misericórdia com a devoção ao Coração de Cristo: «A Igreja parece professar de modo particular a misericórdia de Deus e venerá-la, voltando-se para o Coração de Cristo. Com efeito, a aproximação de Cristo, no mistério do seu Coração, permite deter-nos neste ponto da revelação do amor misericordioso do Pai, que constituiu, em certo sentido, o núcleo central […] da missão messiânica do Filho do Homem» [152]. O próprio São João Paulo II, referindo-se ao Sagrado Coração, reconheceu de modo muito pessoal: «Ele falou-me desde a idade juvenil» [153].
A atualidade da devoção ao Coração de Cristo é particularmente evidente na ação evangelizadora e educativa de numerosas congregações religiosas femininas e masculinas, marcadas desde as suas origens por esta experiência espiritual cristológica. Mencioná-las todas seria uma tarefa interminável. Vejamos apenas dois exemplos escolhidos ao acaso: «O Fundador [São Daniel Comboni] encontrou no mistério do Coração de Jesus a força para o seu empenho missionário» [154]. «Impelidas pelo amor do Coração de Jesus, procuramos o crescimento das pessoas na sua dignidade humana e como filhos e filhas de Deus, com base no Evangelho e nas suas exigências de amor, perdão, justiça e solidariedade para com os pobres e marginalizados» [155]. Do mesmo modo, os Santuários consagrados ao Coração de Cristo, espalhados por todo o mundo, são uma atraente fonte de espiritualidade e fervor. A todos aqueles que, de algum modo, colaboram nestes lugares de fé e de caridade, dirijo a minha bênção paterna.
A chaga do lado, de onde brota a água viva, permanece aberta no Ressuscitado. Esta grande ferida causada pela lança, e as chagas da coroa de espinhos que aparecem com frequência nas representações do Sagrado Coração, são inseparáveis desta devoção. Nela contemplamos o amor de Jesus Cristo que foi capaz de se entregar até ao fim. O coração do Ressuscitado conserva estes sinais da doação total que implicou um intenso sofrimento por nós. Portanto, de algum modo, é inevitável que o fiel queira responder não só a este grande amor, mas também à dor que Cristo aceitou suportar por causa de tanto amor.
Vale a pena recuperar esta expressão da experiência espiritual desenvolvida em torno do Coração de Cristo: o desejo interior de o consolar. Não tratarei agora da prática da “reparação”, que considero melhor inserida no contexto da dimensão social desta devoção, e que desenvolverei no próximo capítulo. Agora gostaria apenas de me concentrar naquele desejo que muitas vezes brota no coração do fiel enamorado quando contempla o mistério da paixão de Cristo e o vive como um mistério que não só é recordado, mas que pela graça se torna presente, ou melhor, nos leva a estar misticamente presentes naquele momento redentor. Se o Amado é o mais importante, como não querer consolá-lo?
O Papa Pio XI procurou fundamentar esta afirmação convidando-nos a reconhecer que o mistério da redenção através da Paixão de Cristo, por graça de Deus, transcende todas as distâncias do tempo e do espaço. Deste modo, se Ele se entregou na Cruz também pelos pecados futuros, os nossos pecados, transcendendo o tempo, chegaram ao seu Coração ferido, assim como os atos que oferecemos hoje pela sua consolação: «Se, portanto, à vista de nossos pecados futuros, porém previstos, a alma de Jesus esteve triste até à morte, não há dúvida que desde então Lhe tenha dado algum conforto a previsão do nosso desagravo, quando “lhe apareceu o Anjo do Céu” ( Lc 22, 43), a consolar-Lhe o Coração opresso de tristeza e de angústia. E assim também agora, em modo admirável, porém verdadeiro, podemos e devemos consolar este Coração Sacratíssimo, continuamente ofendido pelos pecados dos homens ingratos» [156].
Pode parecer que esta expressão de devoção não possua suficiente base teológica, mas o coração tem as suas razões. O sensus fidelium intui que há aqui algo de misterioso que ultrapassa a nossa lógica humana, e que a paixão de Cristo não é um mero evento do passado, pois dela podemos participar a partir da fé. A meditação da entrega de Cristo na cruz é, para a piedade dos fiéis, algo mais do que uma simples recordação. Esta convicção está solidamente fundamentada na teologia [157]. A isto junta-se a consciência do próprio pecado, que Ele carregou sobre os seus ombros feridos, e da própria inadequação perante tanto amor, que sempre nos ultrapassa infinitamente.
Em todo o caso, perguntamo-nos como é possível relacionarmo-nos com Cristo vivo, ressuscitado, plenamente feliz e, ao mesmo tempo, consolá-lo na Paixão. Consideremos que o Coração ressuscitado conserva a sua ferida como uma memória constante, e que a ação da graça provoca uma experiência que não está inteiramente contida no instante cronológico. Estas duas convicções permitem-nos admitir que nos encontramos perante um caminho místico que ultrapassa as tentativas da razão e exprime o que a própria Palavra de Deus nos sugere: «Mas – escreve o Papa Pio XI – como pode ser que Jesus Cristo reine bem-aventurado no Céu, se há mister o consolo de nossa reparação? “Dá uma alma que ame, e compreenderá nosso asserto”, respondemos com as palavras de Santo Agostinho ( in Ioannis Evangelium, tract. 26, 4), que fazem perfeitamente ao nosso propósito. Toda alma, com efeito, deveras abrasada em amor de Deus, se com a consideração abrange o tempo passado, vê em suas meditações e contempla a Jesus a padecer pelo homem, aflito, no meio das dores mais excruciantes “por nós, homens, e pela nossa salvação”, opresso da tristeza, das angústias e dos opróbrios, antes “esmagado pelos nossos delitos” ( Is 53, 5) e em ato de sanar-nos com suas chagas. Com tanta maior verdade as almas pias contemplam as dores do Salvador, enquanto os pecados e os delitos dos homens, perpretados no decurso de todos os tempos, motivaram a condenação de Jesus» [158].
Este ensinamento de Pio XI merece ser tido em conta. Com efeito, quando a Escritura afirma que os cristãos que não vivem de acordo com a sua fé «por si mesmos crucificam de novo o Filho de Deus» (Heb 6, 6), ou que, quando suporto sofrimentos pelos outros, «completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo» (Cl 1, 24), ou que Cristo, na sua paixão, rezou não só pelos seus discípulos de então, mas «por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra» (Jo 17, 20), está a dizer algo que quebra os nossos esquemas limitados. Mostra-nos que não é possível estabelecer um antes e um depois sem qualquer ligação, mesmo que o nosso pensamento não o saiba explicar. O Evangelho, nos seus vários aspectos, não é apenas para ser refletido ou recordado, mas para ser vivido, tanto nas obras de amor como na experiência interior, e isto aplica-se sobretudo ao mistério da morte e ressurreição de Cristo. Não parece que as separações temporais utilizadas pela nossa mente contenham a verdade desta experiência de fé, onde se fundem a união com Cristo sofredor e, ao mesmo tempo, a força, a consolação e a amizade que temos com o Ressuscitado.
Vemos, assim, a unidade do Mistério Pascal nos seus dois aspectos inseparáveis que mutuamente se iluminam. Este Mistério único, fazendo-se presente pela graça nas suas duas dimensões, significa que, quando procuramos oferecer algo a Cristo para a sua consolação, os nossos próprios sofrimentos são iluminados e transfigurados pela luz pascal do amor. Acontece que participamos neste mistério na nossa vida concreta, porque anteriormente o próprio Cristo quis participar na nossa vida, quis viver antecipadamente como cabeça o que o seu corpo eclesial viveria, tanto nas feridas como nas consolações. Quando vivemos na graça de Deus, esta participação mútua torna-se uma experiência espiritual. Em última análise, é o Ressuscitado que, pela ação da sua graça, torna possível que estejamos misteriosamente unidos à sua paixão. Sabem-no os corações que creem, que experimentam a alegria da ressurreição, mas ao mesmo tempo desejam participar no destino do seu Senhor. Estão prontos para esta participação com os sofrimentos, os cansaços, as desilusões e os medos que fazem parte da sua vida. Não a vivem na solidão, pois estas feridas são igualmente uma participação no destino do corpo místico de Cristo que caminha no povo santo de Deus e que leva o destino de Cristo em todos os tempos e lugares da história. A devoção da consolação não é a-histórica ou abstrata, mas torna-se carne e sangue no caminho da Igreja.
O desejo inevitável de consolar Cristo, que surge da dor de contemplar o que Ele sofreu por nós, alimenta-se também do reconhecimento sincero das nossas escravidões, dos nossos apegos, da nossa falta de alegria na fé, das nossas buscas vãs e, para além dos pecados concretos, da falta de correspondência do nosso coração ao seu amor e ao seu projeto. É uma experiência que nos purifica, porque o amor precisa da purificação das lágrimas que, no final, nos deixam mais sedentos de Deus e menos obcecados por nós próprios.
Assim, vemos que, quanto mais profundo se torna o desejo de consolar o Senhor, mais se aprofunda a compunção do coração fiel, que «não é um sentimento de culpa que te lança por terra, nem uma série de escrúpulos que paralisam, mas é uma picada benéfica que queima intimamente e cura, pois o coração, quando se dá conta do próprio mal e se reconhece pecador, abre-se, acolhe a ação do Espírito Santo, como água viva que o muda a ponto de lhe correrem as lágrimas pelo rosto [...]. Não significa sentir pena de nós, como muitas vezes somos tentados a fazer [...]. Diversamente, chorar por nós próprios é arrepender-nos seriamente de ter entristecido a Deus com o pecado; reconhecer que diante d’Ele sempre estamos em débito, nunca em crédito [...]. Assim como a água, gota a gota, escava a pedra, as lágrimas lentamente escavam os corações endurecidos. Deste modo assiste-se ao milagre da tristeza, da boa tristeza, que leva à doçura [...]. A compunção, mais do que fruto do nosso exercício, é uma graça e como tal deve ser pedida na oração» [159]. É «pedir […] dor com Cristo doloroso, quebranto com Cristo quebrantado, lágrimas, pena interna de tanta pena que Cristo passou por mim» [160].
Peço, portanto, que ninguém ridicularize as expressões de fervor devoto do santo povo fiel de Deus, que na sua piedade popular procura consolar Cristo. E convido cada um a perguntar-se se não há mais racionalidade, mais verdade e mais sabedoria em certas manifestações desse amor que procura consolar o Senhor do que nos atos de amor frios, distantes, calculados e mínimos de que somos capazes aqueles que julgamos possuir uma fé mais reflexiva, cultivada e madura.
Nesta contemplação do Coração de Cristo, entregue até ao fim, somos consolados. A dor que sentimos no coração dá lugar a uma confiança total e, por fim, resta a gratidão, a ternura, a paz, o seu amor reinante na nossa vida. A compunção «não provoca angústia, mas alivia a alma dos seus pesos, porque intervém na ferida deixada pelo pecado, preparando-nos para receber lá mesmo a carícia do Senhor» [161]. E a nossa dor une-se à dor de Cristo na cruz, pois quando dizemos que a graça nos permite superar todas as distâncias, isso significa também que Cristo, quando sofria, estava unido a todos os sofrimentos dos seus discípulos ao longo da história. Assim, se sofremos, podemos experimentar a consolação interior de saber que o próprio Cristo sofre conosco. Desejando consolá-lo, saímos consolados.
Mas, num certo momento desta contemplação do coração que crê, deve ressoar aquele dramático apelo do Senhor: «Consolai, consolai o meu povo» (Is 40, 1). E recordamos as palavras de São Paulo, que nos lembra que Deus nos consola «para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus» (2 Cor 1, 4).
Isto convida-nos agora a procurar aprofundar a dimensão comunitária, social e missionária de toda a autêntica devoção ao Coração de Cristo. Com efeito, o Coração de Cristo, ao mesmo tempo que nos conduz ao Pai, envia-nos aos irmãos. Nos frutos de serviço, fraternidade e missão que o Coração de Cristo produz através de nós, cumpre-se a vontade do Pai. Assim se fecha o círculo: «Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto» (Jo 15, 8).
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